JUSTIÇA

Caso Giovanna Tenório atravessa 15 anos sem decisão definitiva sobre acusada de mandar matar jovem

Executor foi condenado a 29 anos de prisão e absolvição de Mirella Granconato foi anulada.


icon fonte image

  Fonte: Gazetaweb - Por Mariane Rodrigues

Mirella Granconato.

Mirella Granconato.   Foto: Reprodução/Gazetaweb/Arquivo

Postado em: 05/09/2026 às 12:00:01

Em 2 de junho de 2011, a estudante do 8º período de fisioterapia, Giovanna Tenório, 29 anos, deixou sua casa no bairro Jaraguá, em Maceió, foi ao estágio no Dique Estrada e seguiu para a faculdade no Farol. Às 12h30, saiu para almoçar com um amigo, mas desapareceu na Rua Íris Alagoense. Dias depois, em 6 de junho, seu corpo foi achado na zona rural de Rio Largo, perto da Fazenda Urucum.


				Caso Giovanna Tenório atravessa 15 anos sem decisão definitiva sobre acusada de mandar matar jovem

Crime brutal. Arquivo

Quinze anos após o crime, o processo não chegou ao fim. O caminhoneiro Luiz Alberto Bernardino da Silva, apontado como executor, foi condenado em setembro de 2017 a 29 anos de reclusão por homicídio duplamente qualificado, ocultação de cadáver e furto do celular da vítima. Já Mirella Granconato Ricciardi, acusada de mandar matar a jovem, acabou absolvida pelos jurados — decisão anulada no ano seguinte. O Tribunal de Justiça de Alagoas (TJAL) aguarda manifestação do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre embargos de declaração para decidir se restabelece a absolvição de Mirella ou se determina novo júri popular.

MORTA POR MEIO CRUEL


				Caso Giovanna Tenório atravessa 15 anos sem decisão definitiva sobre acusada de mandar matar jovem

Giovanna Tenório. Redes sociais

O Instituto Médico Legal (IML) recolheu o corpo à noite, sob forte chuva. Foi preciso usar os faróis das viaturas para periciar o local. Giovanna vestia apenas blusa branca com bolas lilás e sutiã. Estava despida da cintura para baixo, descalça, com mãos e pés amarrados e presos entre si. O cadáver estava envolto em um lençol, ao lado de uma calça comprida branca, calcinha azul, meias e um pé de tênis esquerdo — o direito ficou sobre a palha da cana.


				Caso Giovanna Tenório atravessa 15 anos sem decisão definitiva sobre acusada de mandar matar jovem

Crime brutal. Arquivo

A perícia concluiu que a estudante foi agredida, morta em outro local por asfixia mecânica causada por estrangulamento com fitilho de nylon e desovada no canavial. Os pertences não tinham a terra do terreno e as amarras facilitaram o transporte. Devido à decomposição, não foi possível confirmar violência sexual.

TESE DA ACUSAÇÃO

Polícia Civil e Ministério Público de Alagoas (MPAL) apontaram Mirella Granconato, então com 20 anos, como mandante. A motivação seria o relacionamento extraconjugal da vítima com o companheiro da ré, que já havia agredido Giovanna duas vezes. Em um celular antigo da estudante, a polícia achou mensagens com ameaças de Mirella, como: “Você não vai sentir o mesmo que você me fez sentir, mas você vai me pagar caro pelo que você me fez passar, nem tenha dúvida disso”. Uma semana antes de sumir, a vítima também havia sido ofendida por Mirella ao telefone durante a madrugada.

O MPAL denunciou Mirella por contratar Luiz Alberto por ciúmes. O caminhoneiro foi localizado ao usar o celular da vítima poucas horas após o sumiço, dando versões contraditórias sobre o aparelho. O sinal do telefone dele também o colocou na cena do desaparecimento e no local da desova. Na casa do suspeito, a perícia apreendeu lençol e fitilho idênticos aos do crime.

JULGAMENTO


				Caso Giovanna Tenório atravessa 15 anos sem decisão definitiva sobre acusada de mandar matar jovem

Família de Giovanna Tenório chegou a fazer protestos na orla de Maceió. Arquivo

O júri de Mirella ocorreu em 11 de outubro de 2017. A defesa alegou negativa de autoria. Os jurados reconheceram a responsabilidade da ré, mas a absolveram por clemência pelo homicídio, condenando-a apenas por ocultação de cadáver a um ano e seis meses de reclusão. Por ser pena inferior a quatro anos, obteve o direito de recorrer em liberdade.

A decisão surpreendeu a acusação e o juiz presidente do júri, John Silas da Silva: “Houve absolvição, mas houve também reconhecimento de autoria do crime. Tem essa contrariedade aqui, que houve reconhecimento de autoria e depois absolveu. Tudo bem absolver. Mas também ela deveria ser absolvida pelo crime de ocultação de cadáver, o que não foi feito. No meu entender, existe realmente uma incoerência tremenda”.

O promotor Antônio Luis Vilas Boas definiu o veredicto como “um tapa na cara da sociedade”. “Não era isso que a sociedade alagoana gostaria de ver. O MP respeita a decisão, embora que com ela não concorde. E o remédio que se tem é o recurso”, pontua.


				Caso Giovanna Tenório atravessa 15 anos sem decisão definitiva sobre acusada de mandar matar jovem

Comoção em enterro. Arquivo

O irmão da vítima, Francisco Xavier, desabafou: “Sentimos que a justiça não foi feita. Vamos ficar para o resto da vida com a dor da perda, com o vazio que a gente tem, que é a falta da Giovanna, uma pessoa que sempre fez o bem. Tenho certeza que essa decisão vai ser reparada e que a culpada vai pagar”.

Com a posterior anulação do julgamento, a mãe de Giovanna declarou que voltou a ter esperança. “Estou aguardando com esperança. Enquanto há vida, há esperança. E acreditando muito na justiça divina prevalecendo sobre a dos homens”.

RECURSOS

Por considerar a tese de clemência incoerente, o MPAL apelou em 12 de outubro de 2017. A Câmara Criminal anulou a absolvição em 30 de maio de 2018, mantendo a pena por ocultação de cadáver.

A defesa recorreu ao TJAL, ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e ao STF, alegando soberania dos veredictos e questionando se o Tribunal pode anular absolvição por quesito genérico. Em 2024, o STF fixou o entendimento de que os Tribunais de Justiça podem determinar novo júri quando a absolvição for contrária às provas dos autos.

SITUAÇÃO ATUAL

O TJAL informou que o processo aguarda julgamento de embargos de declaração no STF, cuja última movimentação ocorreu em junho de 2025. Somente após essa análise o caso retornará ao tribunal estadual para deliberação final. A reportagem procurou a defesa de Mirella Granconato, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.

Comentários

Escreva seu comentário
Nome E-mail Mensagem