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Aos 106 anos de idade, o pescador 'João Busano' é o morador mais velho de Pão de Açúcar

Para quem desconhece, a palavra Busano (a grafia correta é escrita com 's') significa: 'pedra de construção parecida com o mármore, dos terrenos cretáceos médios'. A fortaleza deste pescador faz juz ao apelido que recebeu.


O pescador João Francisco dos Santos, 'João Busano'

O pescador João Francisco dos Santos, 'João Busano'   Foto: Reprodução/©Helio Fialho/Notícia Quente

Postado : 08/04/2021   /   por Helio Fialho

O morador mais velho de Pão de Açúcar é pescador, contador de muitas histórias e defensor do rio São Francisco. Em 2010, durante uma oficina promovida pelo Programa de Resgate Cultural de Pescadores e Pescadoras do Baixo São Francisco, representantes do município, pescadores e pescadoras da Colônia Z20 o elegeram “patrimônio vivo de Pão de Açúcar”, em virtude das ricas narrativas que sabe fazer envolvendo o Velho Chico.

Natural de Pão de Açúcar, hoje aos 106 anos de idade, acometido de cegueira e de um problema na próstata, que o faz usar continuamente um cateter vesical, conhecido como “sonda urinária”, o ancião João Francisco dos Santos, conhecido como “João Busano”, é uma figura que integra o folclore pão-de-açucarense, pelas suas tantas histórias contadas, incluindo as de pescador, experiências vividas por ele e, também, por colegas de  profissão, ao longo de sua vida, cruzando o rio em uma pequena e estreita canoa, remando e jogando a rede nas águas do antigo Opará, para extrair o sustento da família.

Foi casado com a senhora Lídia Pereira, de quem ficou viúvo e mantém, até hoje, a viuvez. Pai de quatro filhos: Rute (educadora, já falecida), Reinaldo (pescador, já falecido), “Ninho” e Sudomélia, estando vivos estes dois últimos (Ninho, operário que mora há muitos anos em São Paulo), e Sudomélia, professora estadual, aposentada, que faz companhia ao velho pai, morando na casa onde sempre viveram, na Avenida Ferreira de Novais, contemplando as maravilhosa paisagens do rio São Francisco.

O pescador João Busano e algumas de suas histórias hoje fazem parte de   documentários e reportagens gravados por pesquisadores, historiadores e emissoras televisivas, a exemplo da TV Gazeta de Alagoas, que o entrevistou através da jornalista Liara Nogueira.  

Procurando nas plataformas virtuais, principalmente no YouTube, as pessoas podem assistir a um vídeo, com duração de 2 minutos e 32 segundos, da série “Centenários do São Francisco – Outros Depoimentos – João Francisco” - “senhor Buzano conta como foi o seu encontro com o Caboclo D´água”.

Para quem desconhece, a palavra Busano (a grafia correta é escrita com “s”) significa: pedra de construção parecida com o mármore, dos terrenos cretáceos médios.

E o pescador João Francisco dos Santos faz jus a este apelido, pois é um homem forte, resistente e que, com muito sacrifício, soube construir uma história de vida honrada, procurando fazer muitos amigos e sempre amando a profissão, a família, o Velho Chico e sua terra natal (Pão de Açúcar).

Enquanto sua saúde e sua idade permitiram, ele foi um pescador determinado e destemido, que saia, à noite, para pescar e retornava para casa ao amanhecer, trazendo muitos peixes, de todos os tamanhos, para vender na tradicional “Banca do Peixe”. Durante suas pescarias, não foram poucas as vezes que João Busano teve que enfrentar temporais.

Apesar da vida dura que levava, muito apreciava a sétima arte. Na época em que Pão de Açúcar tinha cinema, João Busano, principalmente às segundas-feiras, gostava de assistir aos cowboys americanos e italianos; aos filmes de história e de karatê, no Cine Globo, (depois Cine Avenida) e no Cine Pax (depois Cine Palace).

No dia 22 de fevereiro de 2018, por ocasião da inauguração da Galeria dos 200 Anos de Alagoas, obra realizada pela então vereadora e professora Lena Machado, na sede da Câmara Municipal de Pão de Açúcar, algumas personalidades, as quais contribuíram significativamente para o engrandecimento do município de Pão de Açúcar, foram agraciadas com a Comenda 200 Anos de Alagoas. E o pescador João Busano foi um dos homenageados.  A solenidade foi realizada em praça pública, em frente à sede do Legislativo Municipal. Na ocasião, fazendo uso da palavra para agradecer, apesar de não enxergar às pessoas, por conta de sua deficiência visual, ele arrancou calorosos aplausos da plateia quando encerrou seus agradecimentos dizendo: “Até a próxima festa”, numa demonstração óbvia de amor à vida e de coragem para encarar, com naturalidade, as grandes dificuldades que  enfrenta, desprovido de visão e com complicações de saúde. Quão rica lição de vida, a plateia, formada por diversas autoridades dos mais diversos setores da sociedade civil organizada, recebeu naquela festa.

Hoje, por conta da idade muito avançada, que o condiciona a ser o morador mais velho de Pão de Açúcar, João Busano apresenta momentos de lucidez e momentos de delírios. E ainda que não consiga enxergar a luz do dia, ele não perdeu a capacidade de dialogar (coisa que sempre gostou de fazer) – ora conversando com sua filha Sudomélia e com seus netos, ora conversando com seus entes queridos que já partiram para a Eternidade, comportamento considerado normal em pessoas com idade muito avançada.

E assim, o velho pescador João Busano, tão resistente tal qual a pedra que gerou seu apelido, segue cumprindo, assim como o Velho Chico, sua missão aqui no planeta Terra. Missão cheia de mistérios, longevidade, histórias ( alegres e tristes). Afinal, João Francisco, o pescador, e São Francisco, o rio, são duas vidas antigas e abençoadas – são dois velhos amigos repletos de enigmas.

 

João Busano homenageado com a "Comenda 200 Anos de Alagoas", em 22 de agosto de 2018. Foto: ©Helio Fialho/NQ

 

João Busano homenageado com a "Comenda 200 Anos de Alagoas", em 22 de agosto de 2018. Foto:©Helio Fialho/NQ