Ambientalista da Sociedade Socioambiental Canoa de Tolda alerta sobre a superpopulação de Mexilhão Dourado no rio São Francisco
Moluscos causam grandes prejuízos às tubulações de sistema de água, aos motores de embarcações e aos ecossistemas aquáticos
Mexilhão Dourado em tubulação/Imagem ilustrativa Foto: CEMIG/Peixe Vivo
O rio São Francisco encontra-se com uma superpopulação de mexilhões dourados e os prejuízos causados são incalculáveis. Este alerta quem vem fazendo há alguns anos é o pesquisador e ambientalista Carlos Eduardo Bezerra, membro da Sociedade Socioambiental Canoa de Tolda. “Infelizmente, nenhuma providência foi tomada para conter esta espécie invasora com grande capacidade de incrustação, com rápida taxa de crescimento e grande força reprodutiva”, disse o ambientalista.
Com o aparecimento do mexilhão dourado em grande quantidade ao longo do Baixo São Francisco, em especial, em áreas que ficam localizadas no município de Pão de Açúcar, a preocupação aumentou significativamente porque isto significa que a situação tornou-se incontrolável e a tendência do quadro é agravar-se mais ainda, já que a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (CHESF) e os órgãos ambientais IBAMA e IMA, até agora, não se manifestaram sobre este sério problema.
E com a drástica redução da vazão da Barragem de Xingó, que atualmente é de 700 m³/s, conforme autorização da ANA – Agência Nacional de Águas, publicada no Diário Oficial da União, em 1º de novembro deste ano, para a reprodução desta espécie o ambiente é satisfatório, pois cada vez mais as correntezas vão desaparecendo da calha do rio e, com isso, o leito está se tornando de águas paradas.
É importante destacar que a vazão mínima padrão dos reservatórios de Sobradinho e Xingó, em situação de normalidade, é de 1,3 mil m³/s, mas esse volume já foi reduzido várias vezes por causa da falta de chuvas na região, o que vem causando sérios impactos ambientais, a exemplo da grande e rápida proliferação de algas e de outras espécies no Baixo São Francisco, uma consequência do processo de morte pelo qual passa o Velho Chico.
Agora foi a vez da Sociedade Socioambiental Canoa de Tolda comunicar por meio do Alerta 01 -2016 – Ocorrência de Mexilhão Dourado No Baixo São Francisco. “Comunicamos a presença no Baixo São Francisco do molusco (marisco ou intã) conhecido como mexilhão dourado (nome científico limnoperna fortunei), abaixo da Usina Hidro Elétrica de Xingó, a partir de observações realizadas desde o dia 7 de dezembro de 2016 nas localidades: Reserva Mato da Onça, Porto do Mato da Onça, Mata Comprida, Morrinho/Ilha do Ferro, todas no município de alagoano de Pão de Açúcar. Situação confirmada pela Unidade Acadêmica de Serra Talhada da UFRPE – Universidade Federal Rural de Pernambuco, em Serra Talhada”, diz o documento encaminhado aos órgãos ambientais de Sergipe e Alagoas.
A preocupação da entidade é tão grande, em razão da grande reprodução do mexilhão dourado no Baixo São Francisco, que o registro da ocorrência foi encaminhado aos órgãos ambientais de Alagoas e Sergipe.
“O registro da Ocorrência foi imediatamente encaminhado ao IBAMA em Sergipe e ao IMA – Instituto de Meio Ambiente de Alagoas. Pela gravidade da situação consideramos urgente a divulgação das informações já que a propagação do mexilhão dourado é muito rápida e exige reação imediata”, diz, ainda, o Alerta.
Para o ambientalista Carlos Eduardo Bezerra, que vem atuando, também, na Reserva Ambiental do Mato da Onça, criada por ele na zona rural de Pão de Açúcar, os problemas no rio São Francisco estão aumentando assustadoramente, porém, a insensibilidade das autoridades competentes continua impondo o crescente quadro de descaso para com o Velho Chico.
“Houve uma piora enorme do avanço das algas e não estamos mais dando conta de limpezas diárias no porto, para ter uma água razoável para consumo. Vamos ter que aumentar a linha da bomba, o que implica em cabos mais grossos, mais canos, um flutuante para ficar na água menos parada. Mais trabalho, mais despesa. Está mais do que na hora de sermos ressarcidos e, também, pela paisagem desfigurada, pelo fedor, uma humilhação”, disse o ambientalista, se referindo às dificuldades ora enfrentadas no porto da comunidade Mato da Onça, onde está localizada a Reserva Ambiental, que vem recebendo a visitação de estudantes, pesquisadores e até mesmo de ambientalistas internacionais.
O problema é tão sério, que a CEMIG – Companhia Energética de Minas Gerais, em seu blog “Peixe Vivo”, postou a seguinte informação sobre o mexilhão dourado: “No ambiente aquático há um molusco que anda preocupando empresas que utilizam a água doce como recurso para seus negócios e também pesquisadores e ambientalistas. O Mexilhão Dourado é considerado uma espécie invasora, ou seja, não é natural do ambiente, e pode ser prejudicial a ele, alterando as suas características e o equilíbrio natural das outras comunidades. Nas águas brasileiras ele tem se reproduzido descontroladamente, por não ter predador e encontrado um ambiente favorável para a sua adaptação. Indústrias, lavouras, hidrelétricas entre outros segmentos, que utilizam água bruta (que vem diretamente dos rios) estão tendo que realizar inspeções e limpezas constantes das suas tubulações. Em forma de larva, os mexilhões entram nas tubulações e lá se fixam e se transforam em adultos, obstruindo-as e obrigando à limpeza constante. Os locais onde os mexilhões se instalam são bombas de resfriamento da transmissão (das estações de captação de água), tubulações dos trocadores de calor de usinas hidrelétricas, de sistemas de irrigação entre outros”.
Sobre a crescente reprodução do mexilhão dourado no Baixo São Francisco, urge a atuação dos órgãos competentes na busca de uma solução definitiva para este grave problema, incluindo, principalmente, CHESF, IBAMA, IMA, secretarias estaduais e municipais do Meio Ambiente, conselhos estaduais e municipais do Meio Ambiente e outros, pois já se fala na possibilidade de a vazão da Barragem de Xingó ser reduzida para 600 m³/s.
A devastadora crise hídrica vem atingindo rios e outros mananciais importantes. O colapso é iminente em vários sistemas que abastecem as populações de cidades localizadas em Alagoas, Sergipe e outros estados do Nordeste.
Se as autoridades competentes não deixarem de lado a “política do faz de conta”, o caos e a desolação irreversíveis passarão a fazer parte do cotidiano de quem depende do rio para viver.


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