A seca está devorando tudo no sertão e em Pão de Açúcar só choveu 350 milímetros em 2016
Já são 42 o número de municípios alagoanos em situação de emergência
Terras de do Povoado Santiago castigadas pela seca Foto: Helio Fialho
Uma das mais prolongadas estiagens assola o semiárido alagoano, causando grandes prejuízos à população, principalmente, às famílias rurais que vivem da agricultura e pecuária. Em muitos municípios do Sertão e Agreste de Alagoas a chuva não cai há mais de um ano. Em outros, a última vez que choveu foi no mês de junho. E, mesmo assim, em quantidade foi insuficiente que se quer deu para molhar o solo e encher os barreiros e cisternas, a exemplo de Pão de Açúcar que, durante todo o ano de 2016, choveu apenas 350 milímetros e a quantidade mínima esperada era 600 milímetros. "O sertão agora está com clima de deserto", comentam alguns meteorologistas.
Esperando a chuva que não veio, a vegetação secou e o que se vê é uma paisagem dominada pela terra enxuta e por árvores desidratadas pelo sol causticante diário.
Para as localidades onde não existe sistema de água encanada, a situação tornou-se muito mais crítica, pois o líquido precioso está em falta para o consumo humano e animal, ficando os moradores a mercê do precário abastecimento feito por carros pipa de programas governamentais.
Na maioria dos municípios do sertão alagoano tem muita gente passando sede e o gado sendo devorado pela seca. Em muitas propriedades rurais e à margem das estradas o que mais se vê são carcaças de animais que morrem em consequência da falta de água.
Em razão deste problema, no dia 24 de agosto deste ano, o governador do estado de Alagoas, Renan Filho, já decretou situação de emergência em 42 municípios, por um período de seis meses, por causa da seca e da falta de chuvas nas regiões. A portaria foi publicada no Diário Oficial do Estado (DOE) nesta mesma data.
Consta no documento que a falta de chuva que castiga os municípios da região semiárida alagoana provocou a diminuição de água nos reservatórios que abastecem as cidades, o que ocasionou impactos significantes na agricultura e pecuária. Além da dificuldade no abastecimento de água para o consumo da população e dos animais.
Já se passaram mais de 120 dias da data desta publicação governamental e a situação nos 42 municípios em situação de emergência só tende a piorar, pois a ausência de chuva continua castigando impiedosamente estas terras situadas no Nordeste.
Em um evento promovido pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh), em 19 de abril deste ano, o meteorologista Emanuel Teixeira esteve à frente das discussões e explicou as previsões de consenso elaboradas pelos Centros Estaduais de Meteorologia da região Nordeste. Segundo o meteorologista da Semarh, a previsão climática para o Sertão e Agreste é de chuvas abaixo da média para 2016.
Na participação da repórter global Maria Júlia Coutinho, a “Maju”, no Jornal Nacional desta quarta-feira (7), ela informou que a previsão de chuvas para a região Nordeste é só no mês de fevereiro de 2017.
Os municípios alagoanos em situação de emergência são: Água Branca, Arapiraca, Batalha, Belo Monte, Cacimbinhas, Canapi, Carneiros, Coité do Nóia, Craíbas, Delmiro Gouveia, Dois Riachos, Estrela de Alagoas, Girau do Ponciano, Igaci, Igreja Nova, Inhapi, Jacaré dos Homens, Jaramataia, Lagoa da Canoa, Major Izidoro, Maravilha, Mar Vermelho, Mata Grande, Minador do Negrão, Monteirópolis, Olho D’Água das Flores, Olho D’Água do Casado, Olivença, Ouro Branco, Palestina, Palmeira dos Índios, Pão de Açúcar, Pariconha, Poço das Trincheiras, Piranhas, Quebrangulo, Santana do Ipanema, São Brás, São José da Tapera, Senador Rui Palmeira e Taquarana eTraipu.
O governo informa que foi considerado que os habitantes destes municípios atingidos pela seca estão em uma situação socioeconômica desfavorável devido ao período de falta de chuvas. Também foi considerado o parecer técnico elaborado pela Coordenadoria Estadual de Defesa Civil de Alagoas no dia 2 de agosto.
Segundo a portaria, os órgãos estaduais localizados nas áreas atingidas adotarão as medidas necessárias para o combate à situação de emergência, em conjunto com os órgãos municipais. Na tentativa de mitigar o sofrimento de milhares de flagelados, os governos federal, estadual e municipal estão investindo no abastecimento através de carros pipa, incluindo a atuação incisiva do Exército no combate à seca na região, procurando, desta forma, garantir água com qualidade para consumo humano e animal.
Mesmo assim, ainda conta com a incompreensão de gananciosos e desonestos motoristas de caminhões pipa que, com a intenção de faturar mais dinheiro, despejam cargas inteiras de água nas estradas ao invés de abastecerem às comunidades rurais que estão passando sede. Este tipo de crime deve ser punido com a exclusão do motorista e do veículo do cadastro da Defesa Civil.
Para se ter uma ideia dos prejuízos que a seca vem causando aos municípios atingidos, basta olhar para a situação de Pão de Açúcar, localizado na região ribeirinha do São Francisco, considerado um dos mais privilegiados de Alagoas por possuir uma grande quantidade de comunidades rurais abastecidas por sistema de água encanada, onde o precioso líquido chega tratado às torneiras das residências.
Segundo informações do SAAE, são 25 comunidades rurais que possuem água encanada levada pela prefeitura através do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE). Mesmo assim, um número considerável de moradores rurais vem sofrendo com os efeitos da escassez de chuva.
As 25 localidades rurais são: Ilha do Ferro, Espinhos, Santiago, Jacarezinho, Limoeiro (na região ribeirinha), Lagoa de Pedra, Quibanzê, Machado, Poço do Sal, Poço Grande, Poço da Volta, Chifre do Bode, Paquiderme, Pajeú, Impueiras, Fazenda Velha, Umburana D`Água (na região de baixo), Meirus, Rua Nova, Xexéu, Coité, Minador, Oiteiro Verde e Pacu (na região de cima).
Na cidade de Pão de Açúcar está instalado um ponto de abastecimento de carros pipa. Todos os dias dezenas de caminhões entram na cidade e saem com tanques cheios de água para abastecer dezenas de municípios localizados no semiárido alagoano.
Uma obra importante está paralisada há meses
No município de Pão de Açúcar, obras do projeto “Sistema de Abastecimento de Água em Comunidades Rurais Difusas no Município de Pão de Açúcar, Alagoas” estão paralisadas há meses.
O projeto está sendo executado pela CODEVASF através da empresa Imperatriz Poços e Irrigações Ltda. Segundo informações, a empresa Imperatriz conseguiu construir 30% da obra e, por ter deixado de cumprir diversas obrigações contratuais, inclusive o pagamento de salários aos funcionários, a obra está paralisada desde o mês de abril deste ano. Funcionários da empresa chegaram a fazer protestos em razão do atraso salarial e até denunciaram à Justiça as irregularidades cometidas pela Imperatriz.
Este projeto quando estiver concluído captará água no rio São Francisco, nas proximidades do Sítio Alemar, e abastecerá dezenas de comunidade rurais localizadas à margem do sistema de abastecimento, incluindo a comunidade Japão e outras localidades da região de cima.
Sobre a permanência da empresa Imperatriz à frente desta obra, depois de acumular diversas reclamações na Justiçado Trabalho, vai depender exclusivamente da decisão da CODEVASF, que também está amargando prejuízos com a paralisação da obra que tem o objetivo de aliviar o sofrimento dos moradores rurais de Pão de Açúcar na convivência com a seca.
Sertão – uma terra marcada por contínuas secas
O sol que atualmente castiga as terras do semiárido alagoano não é diferente do sol causticante que abateu o sertão no ano de 1970.
Durante a seca de 1970, a fome foi tão grande que muitos flagelados chegaram a comer pão de massa de macambira e de mucunã e sopa de palma desidratada. Homens e mulheres famintos invadiram feiras livres, saquearam mercados e casas comerciais, com o intuito de matar a fome. Enquanto isso, o rebanho era completamente dizimado pela estiagem e as terras sertanejas foram transformadas em um vale de ossos secos.
Nessa época, o Governo Federal abriu as chamadas “frentes de emergência”, para evitar o êxodo rural, isto é, para impedir a saída do homem do campo para os centros urbanos em busca de trabalho para sustentar a família, o que, na maioria das vezes, resultava em desemprego e aumento da violência urbana.
Hoje os programas sociais implantados a níveis federal, estadual e municipal, a exemplo do Bolsa Família, Garantia Safra e outros destinados às famílias de baixa renda, incluindo os agricultores familiares, evitam o crescimento do número de pedintes (mendigos) nos centros urbanos.
Em um período de seca prolongada como este que ora castiga o semiárido nordestino, a ajuda financeira dos governos através dos programas sociais tem evitado o êxodo rural, os saques a supermercados e o crescimento do número de mendigos. O abastecimento de água através de carros pipa está, também, presente nos dias de hoje, ainda que de forma insuficiente.
O que é a seca?
Trata-se de um fenômeno natural, caracterizado pelo atraso na precipitação de chuvas ou a sua distribuição irregular, que acaba prejudicando o crescimento ou desenvolvimento das plantações agrícolas.
O problema não é novo, nem exclusivo do Nordeste brasileiro. Ocorre com frequência, apresenta uma relativa periodicidade e pode ser previsto com uma certa antecedência. A seca incide no Brasil, assim como pode atingir a África, a Ásia, a Austrália e a América do Norte.
No Nordeste, de acordo com registros históricos, o fenômeno aparece com intervalos próximos a dez anos, podendo se prolongar por períodos de três, quatro e, excepcionalmente, até cinco anos. As secas são conhecidas, no Brasil, desde o século XVI.
A seca se manifesta com intensidades diferentes. Depende do índice de precipitações pluviométricas. Quando há uma deficiência acentuada na quantidade de chuvas no ano, inferior ao mínimo do que necessitam as plantações, a seca é absoluta.
Em outros casos, quando as chuvas são suficientes apenas para cobrir de folhas a caatinga e acumular um pouco de água nos barreiros e açudes, mas não permitem o desenvolvimento normal dos plantios agrícolas, dá-se a seca verde.
Essas variações climáticas prejudicam o crescimento das plantações e acabam provocando um sério problema social, uma vez que expressivo contingente de pessoas que habita a região vive, verdadeiramente, em situação de extrema pobreza.
A seca é o resultado da interação de vários fatores, alguns externos à região (como o processo de circulação dos ventos e as correntes marinhas, que se relacionam com o movimento atmosférico, impedindo a formação de chuvas em determinados locais), e de outros internos (como a vegetação pouco robusta, a topografia e a alta refletividade do solo).
Muitas têm sido as causas apontadas, tais como o desflorestamento, temperatura da região, quantidade de chuvas, relevo topográfico e manchas solares. Ressalte-se, ainda, o fenômeno "El Niño", que consiste no aumento da temperatura das águas do Oceano Pacífico, ao largo do litoral do Peru e do Equador.
A ação do homem também tem contribuído para agravar a questão, pois a constante destruição da vegetação natural por meio de queimadas acarreta a expansão do clima semiárido para áreas onde anteriormente ele não existia.
A seca é um fenômeno ecológico que se manifesta na redução da produção agropecuária, provoca uma crise social e se transforma em um problema político.
As consequências mais evidentes das grandes secas são a fome, a desnutrição, a miséria e a migração para os centros urbanos (êxodo rural).
Os problemas que sucedem as secas resultam de falhas no processo de ocupação e de utilização dos solos e da manutenção de uma estrutura social profundamente concentradora e injusta.
O primeiro fato se manifesta na introdução de culturas de difícil adaptação às condições climáticas existentes e do uso de técnicas de utilização dos solos não compatíveis com as condições ecológicas da região. O segundo ocasiona o controle da propriedade da terra e do processo político pelas oligarquias locais.
Esses aspectos agravam os resultados das secas e provocam a destruição da natureza, a poluição dos rios e a exploração por parte os grandes proprietários e altos comerciantes, dos recursos destinados ao combate à pobreza da região, no que se denomina de "indústria da seca".
Esta questão não se resume à falta de água. A rigor, não falta água no Nordeste. Faltam soluções para resolver a sua má distribuição e as dificuldades de seu aproveitamento. É "necessário desmitificar a seca como elemento desestabilizador da economia e da vida social nordestina e como fonte de elevadas despesas para a União. Desmitificar a ideia de que a seca, sendo um fenômeno natural, é responsável pela fome e pela miséria que dominam na região, como se esses elementos estivessem presentes só aí", afirma o pesquisador e escritor Manoel Correia Andrade, em sua obra “A seca: realidade e mito”.
Fonte: Fundação Joaquim Nabuco/Bibliotecária Lúcia Gaspar


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