Vício de Celular: uma perigosa doença da modernidade, que leva crianças e adolescentes a isolarem-se da família e dos amigos reais
Urge a criação de políticas públicas para combater a doença que tem levado os nossos jovens à depressão, ao isolamento familiar e à perda de rendimento escolar.

Fonte: * Por Helio Fialho
Vício de Celular: uma perigosa doença da modernidade, que leva crianças e adolescentes a isolarem-se da família e dos amigos reais Foto: Reprodução/Google
Cresci ouvindo dentro de minha casa que “duas práticas são capazes de levar uma pessoa à desgraça moral, conjugal e financeira: o vício da bebida e o vício do jogo de baralho”.
Coincidência ou não, conheci várias pessoas que, em consequência destes dois vícios, perderam tudo o que elas tinham: desperdiçaram o patrimônio, o emprego, os amigos e a autoestima, além de perderem o respeito perante a sociedade e serem abandonadas pela família. Não faz duas décadas que estes dois vícios eram considerados os grandes devastadores do cidadão.
Segundo revela a 3ª Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia da Informação nas Empresas, realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), o Brasil tem hoje 230 milhões de celulares ativos e, em 2019, o País terá 420 milhões de aparelhos digitais ativos. A pesquisa diz ainda que tem dois aparelhos digitas por habitante, incluindo smartphones, computadores, notebooks e tablets.
E agora, nestes tempos modernos, surgiram mais dois vilões: o vício de drogas e o vício de aparelho celular, sendo estes os mais perigosos inimigos da juventude, pois são capazes de levar o jovem a isolar-se da família e da sociedade.
Nestes tempos modernos, onde sempre buscam um jeitinho para camuflar a realidade, o vocábulo “viciado” deu lugar às palavras “dependente” e “usuário”. Por isso, hoje é comum ouvirmos as expressões: “José é dependente químico”, “João é usuário de crack”, “Maria é dependente de celular”.
Neste meu artigo, quero focar no vício de celular, para que sirva de alerta, principalmente aos pais, pois este tipo de dependência vem escravizando, principalmente crianças e adolescentes, levando-os a viverem isolados de suas famílias, dos “amigos reais” e da sociedade, a ponto de passarem o dia inteiro sem tomar banho, sem escovar os dentes, sem sentar à mesa para alimentar-se e sem interagir com a própria família, pois vivem o dia inteiro dentro de um quarto e teclando o smartphone.
E como consequência da falta de tempo (ou de interesse) para fazer a higiene do corpo, isto é, escovar os dentes, tomar banho, lavar os cabelos, limpar as orelhas, limpar a cavidade do nariz, cortar as unhas, lavar as mãos sempre que estiverem sujas ou suadas, dentre outras atitudes, muitos jovens carregam consigo um mau cheiro insuportável, provocado pelo chulé (bromidrose plantar) e o odor de axilas – causado pelos compostos químicos liberados pelas bactérias presentes na nossa pele, que se alimentam a partir do suor e das células mortas nela presentes.
Para que possamos entender melhor como se dá o processo de dependência no indivíduo, é pertinente conceituarmos a dependência química, que “é uma condição física e psicológica causada pelo consumo constante de substâncias psicoativas. Devido a constante utilização desses tipos de drogas, o corpo humano torna-se cada vez mais dependente dos mesmos, tendo como consequência sintomas que afetam o sistema nervoso. Quando o indivíduo deixa de consumir, tem a sensação de ressaca, considerado um dos principais motivos que impedem o abandono das drogas por parte dos dependentes. A dependência varia consoante o vício e a frequência de consumo do individuo. Uma das áreas mais afetadas de um dependente químico é a psicológica, alterando bruscamente a sua maneira de viver e a sua interação com a sociedade”.
A dependência química desenvolve síndrome de abstinência, cujos sintomas são os mais diversos.
E com a NOMOFOBIA (a dependência do telefone celular, também conhecida como uso problemático ou compulsão do telefone móvel) não é diferente, pois basta ficar não mais que 60 minutos sem o uso do aparelho, que a pessoa viciada fica ansiosa, nervosa, irritada e com oscilações de humor.
É importante destacar que este neologismo (NOMOFOBIA) é uma abreviação, do inglês, para no-mobile-phone phobia, cujo termo foi criado recentemente no Reino Unido para descrever o pavor de estar sem o telefone celular disponível.
Para alguns especialistas em comportamento humano, a NOMOFOBIA vem causando o aumento assustador de casos de depressão, deficiência auditiva, queda no rendimento escolar e outros males que estão alvejando as nossas crianças e os nossos adolescentes.
Focados em pesquisas sobre a dependência de telefone celular (NOMOFOBIA), estudiosos afirmam que haverá, em curto prazo, uma acentuada procura por psicólogos, psiquiatras e outros terapeutas da área comportamental humana, além de otorrinos, já que a dependência do telefone celular pode provocar, também, lesão na membrana timpânica e perda auditiva condutiva (surdez).
Assim sendo, para salvar os nossos filhos, netos e bisnetos dos efeitos nocivos desta doença tecnológica – a NOMOFOBIA – urge a implantação de políticas públicas e ações que venham inibir o uso excessivo de aparelhos celulares.
E para esta árdua batalha, precisam estar unidos Estado, Governo e Sociedade, criando programas e executando projetos, principalmente nas áreas de Educação e Saúde, de forma que as instituições afins possam desenvolver ações efetivas e eficientes que venham sensibilizar, conscientizar e, também, curar crianças, adolescentes e adultos NOMOFÓBICOS (dependentes de celular).
Para a solução deste complexo problema, a família também precisa fazer o dever de casa: os pais devem ter mais diálogo com os filhos; dedicar mais cuidado e afeto aos menores, para evitar que os mesmos busquem o uso excessivo do smartphone como uma forma de fuga para os problemas; orientar as crianças e os adolescentes sobre os males que o uso excessivo de celular pode causar à saúde; disciplinar o uso do aparelho, inclusive determinar o horário e os dias em que o filho pode teclar, etc.
Já ao Estado e Governo, estes devem viabilizar um amplo e eficiente trabalho educativo através de instituições governamentais e não governamentais, dentre esses: ministérios, secretarias, escolas, unidades de saúde, veículos de comunicação e redes sociais, de modo que a população possa ter fácil acesso a informações importantes sobre os males causados pelo uso excessivo de smartphone.
Compete também ao Estado, já que estamos sugerindo adoção de “políticas de estado”, buscar parcerias com a iniciativa privada, objetivando manter essas ações em combate à dependência de celular, que se tornou um sério problema de saúde pública.
Neste contexto, uma excelente alternativa será a criação de um fundo para manutenção dos programas e projetos afins.
Para que isso venha tornar-se realidade, o Estado, principalmente a União, precisa dialogar com os empresários do setor e, ainda, criar mecanismos para que os fabricantes possam disponibilizar recursos financeiros para manutenção de ações educativas/preventivas e, também, curativas, disponibilizando tratamento gratuito para os nomofóbicos.
Se o Estado, a Sociedade e os Fabricantes de smartphones fizerem suas respectivas partes, teremos, com certeza, em médio ou em longo prazo, crianças e adolescentes mais saudáveis e, consequentemente, uma população menos doente no Brasil.
* O autor deste artigo é jornalista e especialista em Terapia de Familia.


Comentários
Escreva seu comentário