Torneiro mecânico está construindo 'o barco do sonho', em Pão de Açúcar, utilizando ferro sucateado para ajudar o meio ambiente
Alcides de Sá continua buscando o apoio de órgãos governamentais para terminar a embarcação que, segundo ele, engrandecerá o Velho Chico e ajudará o turismo local.

Fonte: Helio Fialho/Notícia Quente
O torneiro mecãnico Alcides de Sá está construindo Foto: Notícia Quente/Helio Fialho
A Navegação, ao longo da história, sempre foi muito importante para a humanidade. Nos dias de Noé, segundo as Sagradas Escrituras, ele construiu a Arca para salvar o povo e os animais do Dilúvio que assolou a Terra durante quarenta dias e quarenta noites.
Na Antiguidade a atividade náutica era dominada pelos Vikings, Gregos, Persas, Fenícios e outros povos, que usavam navios de guerra em grandes e sangrentas batalhas.
Na Idade Moderna, grandes navegadores europeus, a exemplo de Marco Polo (Itália), Cristóvão Colombo (Itália), Vasco da Gama (Portugal), Pedro Álvares Cabral (Portugal) Américo Vespúcio (Itália), Alonso de Ojeda (Espanha), Vicente Iañes Pinzón (Espanha), Fernão de Magalhães (Portugal),Diogo Velasquez (Espanha), Juan Ponce de León (Espanha) e outros desbravadores cruzaram mares e rios em busca de negócios e descobertas.
Já está mais que provado: um dos maiores prazeres do ser humano é a possibilidade de viajar e conhecer novos mundos, obter conhecimentos e se inserir em uma cultura diferente. E muitos dos grandes homens da história universal souberam aliar a busca desse prazer com a vontade insaciável de conquistas de mundos, riquezas e glórias.
Nos dias hodiernos o fascínio pela navegação continua a impulsionar a construção naval no mundo inteiro, confirmando a frase do imortalizado poeta lusitano Fernando Pessoa que, inspirado nos grandes navegadores de sua pátria natal, escreveu: “Navegar é preciso, viver não é preciso”.
E é justamente em um cenário de deslumbramento naval que entra o nome do alagoano, nascido em Igreja Nova, Alcides de Sá, de 62 anos, que durante muitos anos bebeu na fonte da cultura baiana, na condição de morador soteropolitano, mudando-se para Pão de Açúcar, em 2008, onde exerce a profissão de torneiro mecânico e trabalha na própria oficina, localizada à Rua Cônego Jasson Souto.
“Recupero e fabrico qualquer tipo de peça para máquinas. É só pedir que eu faço aqui na minha oficina”, disse Alcides, com jeito de quem confia no próprio taco, devido a sua grande experiência nas áreas de metalurgia e mecânica.
Segundo ele, aos 13 anos começou a trabalhar como metalúrgico e passou por empresas famosas instaladas na Bahia e em outras capitais onde morou. Também possui experiência em atividades náuticas, serviu ao Exército Brasileiro e já foi militante dos movimentos sindicais promovidos pelos metalúrgicos, o que justifica ser um homem de luta e que não costuma desistir facilmente de seus projetos. “Já trabalhei em metalúrgicas famosas no Brasil, sendo algumas delas instaladas na Bahia, onde desenvolvi várias atividades”, declarou.
Ele, com muita garra e coragem, está construindo “o barco do sonho”, como sempre gosta de chamar a obra férrea, fazendo uso de sucatas. Depois de pronto, segundo ele, o barco receberá o nome de Kon-Tiki, uma homenagem ao deus do sol Inca, o mesmo nome do barco utilizado pelo explorador norueguês Thor Heyerdahl, em sua expedição pelo Oceano Pacífico, partindo da América do Sul para a Polinésia, em 1947.
Ao receber a reportagem do Notícia Quente, Alcides de Sá falou sobre a construção da embarcação que, segundo ele, é movida pelo grande sonho de um dia poder cruzar o Velho Chico em sua própria embarcação, que vem sendo construída desde o mês de janeiro de 2013.
Apesar das grandes dificuldades financeiras que vem enfrentando durante os quase cinco anos de construção, o torneiro mecânico escreveu uma frase que está destacada no barco e que tem chamado a atenção de todas as pessoas que visitam a obra: “Não basta sonhar, é preciso ter coragem”.
E é preciso mesmo coragem para construir um barco do porte deste projetado por Alcides, fazendo a utilização de material sucateado que poderia estar poluindo o meio ambiente. Só mesmo uma pessoa possuidora de consciência ecológica poderia fazer tal façanha. “Estou construindo o meu barco com material sucateado porque ajuda o meio ambiente e, ainda, viabiliza a obra porque o preço do material novo é caro e foge da minha realidade financeira, completou Alcides.
Ele também afirmou que o objetivo da construção é engrandecer o rio São Francisco que se encontra completamente abandonado pelo poder público, além de contribuir para o desenvolvimento turístico de Pão de Açúcar, a terra que o acolheu.
Até agora já foram gastos cerca de R$ 100 mil reais no novo Kon-Tiki, dinheiro vindo exclusivamente de sua renda como torneiro mecânico. “De cada serviço que faço, eu tiro um pouco do dinheiro que recebo e invisto no barco”, disse Alcides.
O barco foi planejado para ser construído em apenas um ano, porém, por falta de recursos financeiros não foi concluído até agora. E quando a embarcação estiver pronta, irá fazer passeios turísticos pelas águas do Velho Chico, onde as pessoas vão poder viajar e contemplar as belas paisagens ribeirinhas a bordo do novo Kon-Tiki.
Questionado sobre a segurança da embarcação, o construtor narrou que, certo dia, atendendo a uma denúncia feita por alguém que não gostou da ideia da construção do barco, o capitão dos portos e um engenheiro naval da Agência Fluvial de Penedo realizaram uma averiguação na obra e ficaram admirados com os serviços e a estrutura da embarcação. “Eles aprovaram e até prometeram comparecer à inauguração”, disse o construtor.
Com a obstinação de Noé, a coragem dos guerreiros navais da Antiguidade e o espírito dos navegadores europeus da Idade Moderna, Alcides continua com a sua obra férrea de vento em popa e, por isso, ele frequenta todos os dias a beira do rio, precisamente o antigo porto das lanchas, local onde a embarcação vem sendo construída.
É em plena margem do rio que o talentoso e visionário torneiro mecânico toca a sua obra, utilizando ferro velho, segundo ele, movido por duas chamas vivas de esperança que carrega no coração. A primeira chama é de um dia poder contar com o apoio de órgãos governamentais, incluindo a Prefeitura de Pão de Açúcar, para logo deixar pronto o barco dos sonhos, e, assim, poder disponibilizar passeios turísticos aos amantes do rio São Francisco.
A segunda chama é de um dia poder ver o Velho Chico voltar a encher com o vigor de outrora, como nos tempos de menino, época em Alcides morava em Igreja Nova, município localizado na região do Baixo São Francisco.
Somente o grande amor pelo Velho Chico – rio que está ameaçado de desaparecer – justifica a construção do novo Kon-Tiki, uma obra tocada exclusivamente pelo torneiro mecânico Alcides de Sá. Depois de pronto, o barco pesará cerca de 5 toneladas, com 18 metros de comprimento e 6 metros de largura.
E diante deste barco que está sendo construída em harmonia com o meio ambiente, não dá para deixar de invocar mais uma frase do poeta Fernando Pessoa: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.


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