Terra do Sol: Calor muito forte provoca desconforto nos moradores da cidade de Pão de Açúcar
O meteorologista Wendell Barbosa Fialho concede entrevista ao Notícia Quente e fala sobre os fatores que contribuem para que Pão de Açúcar registre altas temperaturas durante o verão.
45 graus foi a temperatura registrada em Pão de Açúcar, em novembro de 2015 Foto: Reprodução/Divulgação
Por Helio Fialho
A cidade sertaneja de Pão de Açúcar, uma das mais antigas e belas do estado de Alagoas, privilegiada por sua localização – à margem do rio São Francisco – distante 240 quilômetros da capital Maceió e localizada no Baixo São Francisco, é conhecida como “a terceira cidade mais quente do Brasil, ficando somente atrás de Patos, na Paraíba, e Picos, no Piauí", segundo informações dos mais antigos moradores da cidade.
Acredita-se que tal classificação tenha sido dada por antigos representantes comerciais, conhecidos como “viajantes”, os quais faziam as mais diversas praças do Brasil e quando chegavam a Pão de Açúcar, onde muitas vezes pernoitavam, sentiam o calor diferenciado, intitulando a cidade como a terceira mais quente entre as demais. E assim a fama de “a terceira cidade mais quente do Brasil” vem atravessando os séculos, embora não exista respaldo científico para esta afirmativa, ficando provado apenas que o calor da cidade é mesmo insuportável.
Durante o verão as mais altas temperaturas registradas em Pão de Açúcar chegam a superar os 40 graus centígrados, isso sem somar-se à sensação térmica.
Sobre o forte calor que assola a população, há quem defenda que “a cidade fica dentro de um buraco e os montes circundantes impedem a circulação de ventos, provocando, assim, a elevação da temperatura durante o verão”.
Não é novidade que o calor de Pão de Açúcar muitas vezes provoca dor de cabeça, diarreia e náusea, principalmente em crianças e idosos. Nestes casos, beber água com frequência evita a desidratação.
Coincidentemente é durante o período de forte calor que aumenta assustadoramente o número de óbitos provenientes de infarto, embora não exista um estudo que comprove essa estatística. E para deixar ainda mais os moradores assustados, só na semana passada duas mulheres que moravam em casas vizinhas foram a óbito em consequência de infarto. “Uma mulher chegou a velar o corpo da amiga que havia falecido e, ao retornar para casa, sofreu um infarto fulminante”, disse uma moradora da Rua São Francisco.
Embora não exista uma pesquisa científica que possa afirmar, ainda, que o forte calor vem provocando óbitos na cidade de Pão de Açúcar, sabe-se, entretanto, que pessoas hipertensas tendem a apresentar complicações de saúde durante a estação de altas temperaturas.
Segundo informações do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o dia 3 de janeiro de 2018 (quarta-feira), por volta das 15 horas, foi registrada a mais alta temperatura deste verão na cidade de Pão de Açúcar, onde o filamento de mercúrio assinalou 38.8 graus com sensação térmica de 39,8 graus e ventos de 3.6 Km/hora.
E para os moradores que estão clamando a Deus para chover na cidade, a previsão para os próximos sete dias é de tempo nublado com baixíssima probabilidade de chuva e com temperatura mínima e máxima de 25 graus e 38 graus, respectivamente, e não há previsão de trovoada.
Para enfrentar as altas temperaturas, os moradores de Pão de Açúcar devem vestir roupas leves, beber muita água e sucos, passar protetor solar sobre o corpo e alimentar-se de frutas e outros alimentos que não sejam gordurosos.
Auditórios, salas de aula, salas de reunião e outros ambientes de frequência coletiva devem ser climatizados para evitar desconforto às pessoas, pois já está mais que provado que a instalação de condicionadores de ar nestes espaços não significa luxo, significa necessidade.
Para justificar o forte calor que faz na cidade onde mora, o autor desta matéria, na qualidade de filho da terra, costuma jocosamente dizer para os amigos e visitantes que "Pão de Açúcar é menos quente que o Inferno apenas um grau", Já outros moradores costumam dizer em tom de brincadeira que "se uma pessoa quiser estrelar um ovo para comer no almoço, basta colocar a frigideira sobre a calçada ao meio-dia e em menos de cinco minutos o ovo estará frito".
Sobre este fenômeno natural regido pelo sol, que vem castigando insuportavelmente a cidade de Pão de Açúcar, conhecida como Terra do Sol, Espelho da Lua, o Notícia Quente saiu em busca de uma resposta científica e entrevistou o competente meteorologista Wendell Barbosa Fialho, um alagoano residente em São Paulo, graduado pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), mestre e doutorando pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). Na entrevista relâmpago, ele respondeu aos questionamentos que esclarecem, à luz da ciência, o clima diferenciado existente na Terra de Jaciobá. Leia abaixo a entrevista, na íntegra.
Entrevista
Quais os principais fatores físicos que fazem de Pão de Açúcar uma cidade de elevadas temperaturas? Pão de Açúcar geograficamente pertence à região do sertão nordestino, portanto, levando-se em conta o regime de chuvas, encontra-se sobre o Nordeste do Brasil uma alta variedade climática, podendo-se verificar desde o clima semiárido no interior da região, com chuva acumulada inferior a 500 milímetros/ano, até o clima chuvoso, observado principalmente na costa litorânea da região, com chuva acumulada anual superior a 1500 milímetros. Esses baixos valores no acumulado de chuva, deve-se a movimentos verticais descendentes na atmosfera (de cima para baixo) sobre a região do sertão nordestino na qual Pão de Açúcar estar inserida. Esses movimentos verticais descendentes contribuem para a inibição da formação de nuvens que provocam chuvas intensas. Além disso, os ventos úmidos provenientes do Oceano Atlântico não alcançam a região do semiárido nordestino fazendo que o sertão do Nordeste do Brasil experimente longos períodos de seca.
Por que as temperaturas em Pão de Açúcar são maiores durante o verão do que no inverno? De fato, durante o inverno as temperaturas são mais amenas, trazendo a sensação de certo conforto. Mas é uma característica inerente da região semiárida, o clima quente e seco, onde se inclui Pão de Açúcar.
Qual a relação entre a sensação térmica e as temperaturas em Pão de Açúcar? A sensação térmica é a diferença entre o que o aparelho (de medição) registra e o que o corpo humano de fato sente nas condições de um lugar em um determinado momento. Para calculá-la, usamos uma tabela que leva em conta algumas variáveis, como a temperatura e a intensidade do vento. Quanto mais intenso o vento, a sensação térmica (a temperatura que "nosso corpo sente") será menor. Embora a sensação térmica seja algo subjetivo, porque cada pessoa percebe a temperatura de uma maneira diferente. Uma pessoa com mais gordura corporal tende a sentir menos frio que alguém mais magro.
Qual é o efeito das mudanças climáticas nas altas temperaturas em Pão de Açúcar? Os efeitos das mudanças climáticas poderão ser notados em grande escala, onde há estudos que mostram, por exemplo, que o desmatamento da Amazônia pode gerar uma redução significativa na chuva daquela região. Tratando-se apenas de Pão de Açúcar, é pouco provável que os efeitos das mudanças climáticas sejam notados na pequena escala.
O Rio São Francisco exerce influência nas temperaturas de Pão de Açúcar? Não há nenhum estudo na literatura científica que mostra a influência do Rio São Francisco no controle das temperaturas de qualquer cidade ribeirinha.
A cidade de Pão de Açúcar é realmente a terceira mais quente do Brasil? E só perde para Patos (PB) e Picos (PI)? Como chegaram a esta conclusão? Já ouvi falar sobre esse “ranking” das cidades mais quentes nessa ordem, porém, na Academia nunca ouvi falar de um ranking com as cidades mais quentes do Brasil. Fiz uma pesquisa e encontrei várias “versões”, inclusive na internet, das cidades que possam vir a ser as mais quentes do Brasil. Mas do ponto de vista científico isso não é comprovado. Para essa comprovação seria necessária uma série histórica de dados com as temperaturas de cada cidade e ver em qual dia/mês/ano ocorreu, de fato, a temperatura máxima.
*Wendell Barbosa Fialho é meteorologista graduado pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), possui mestrado em meteorologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e atualmente cursa doutorado em meteorologia no INPE.


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