Sexagenário sim! Superado não!
Análise de Helio Fialho sobre as suas seis décadas de existência
O jornalista e escritor Helio Fialho redigindo seus textos... Foto: Reprodução/Vânia Oliveira Rezende
As minhas seis décadas vividas trouxeram-me maturidade e prudência; deram-me visão de águia e voo de gaivota e, por isso, sou mais comedido e mais seguro em tudo o que faço – porque já não faço tudo o que a emoção deseja fazer conspirando contra a razão, como nos tempos de juventude e cabelos longos ao vento como se estivessem acenando para a minha liberdade e arroubos da própria idade.
Com o passar do tempo aprendi a ouvir mais que falar e a olhar paulatinamente para um problema e a enxerga-lo de vários ângulos. E só após minuciosa análise, busco uma possível solução, consciente que a precipitação é o antônimo de sensatez.
Na minha trajetória pela vida aprendi grandes e ricas lições convivendo com pessoas das mais variadas índoles e estirpes, porém, sempre optei em seguir o meu próprio estilo de vida, embora, para mim, não está sendo fácil e confortável manter a minha própria identidade porque, infelizmente, nos dias hodiernos a sociedade prefere viver mergulhada no oceano de ilusões, onde o fingimento e a aparência são máscaras imprescindíveis.
O escritor Lituano, Haim Shapira, em seu livro “A Felicidade está nas Pequenas Coisas”, escreveu: “Uma das coisas mais interessantes sobre a experiência da máscara é o fato de que, depois de removê-la, ficamos surpresos ao encontrar outra por baixo. Essa segunda máscara é mais fácil retirar, mas, quando conseguimos... encontramos outra. Parece não ter fim. Temos diversas camadas de máscaras que nos impedem de nos conhecer de verdade [...] Quem não se assusta com essa experiência não está fazendo direito ou vive em negação eterna”.
Na minha luta cotidiana para manter a minha autenticidade, aprendi enxergar o tempo como o meu aliado e não como o meu inimigo implacável – porque o tempo é o senhor da razão e, por conseguinte, ele tem sabido perfeitamente conduzir-me às transformações que o processo natural da vida tem prescrito na minha jornada terrena.
Sabemos que muitos, usando as “máscaras da vida”, estão a esconder a idade e não aceitando as transmutações naturais. Essas pessoas lutam inutilmente contra algo inexorável porque em toda a história da humanidade ninguém conseguiu e jamais conseguirá corromper o tempo – porque os ciclos da vida são comandados por Deus, o incorruptível.
Uma pessoa pode até conseguir negar sua idade, submeter-se a cirurgia plástica para esconder as rugas do corpo, porém, considero dantesca tolice, pois jamais conseguirão camuflar as marcas do tempo e os desequilíbrios hormonais do corpo, os quais naturalmente são provocados pelos anos vividos – isso normalmente acontece a partir da terceira idade.
Este tema faz-me recordar de uma mulher que, ao procurar um posto de saúde rural para submeter-se a uma consulta médica, ela foi indagada sobre a idade, para preenchimento de uma ficha cadastral, preferindo anotar a informação em um papel e entregar à atendente, com o intuito de não revelar a idade publicamente. Na ocasião, setembro de 1978, a mulher tinha aproximadamente 35 anos de idade. Agora, passados quarenta anos, vejo-a com os cabelos embranquecidos, rosto bastante enrugado e andar meio trôpego, dando a impressão que fora acometida de alguma enfermidade que comprometeu a sua mobilidade. Como já era de se esperar, a mulher que não aceitava revelar a idade não conseguiu inibir o avançar do tempo.
Digo que estou vivendo uma das fases mais produtivas da minha existência. Todos os dias acordo às 5 horas da manhã e já começo a trabalhar na produção de textos, na atualização de um portal de notícias e na elaboração de alguns projetos de minha autoria, incluindo cinco livros que encontram-se em fase de conclusão, além de diversas pesquisas que venho realizando. Tenho, também, sido procurado por estudantes que vêm em busca de informações para elaboração de trabalhos escolares. Também tenho participado de cursos, seminários e outros eventos on line e, ainda, sobra-me tempo para os meus estudos nas áreas de Direito, Comunicação, Terapia de Família, Teologia e outros, dos quais não abro mão.
Não raramente colaboro na realização de tarefas domésticas e tiro algumas dúvidas de minha filha Stefanie, fazendo uma espécie de reforço escolar. E após as minhas tarefas diárias, é claro, deito para dormir às 23 horas, pois não sou de ferro. Tudo isso é muito gratificante!
Ao olhar para as minhas fotografias do passado sinto saudade de épocas que jamais voltarão, porém, procuro sempre entender que a minha fase de juventude se foi e levou os meus cabelos longos, o meu corpo magérrimo de 58 quilos e a minha ousadia e disposição para viver aventuras.
Durante as minhas seis décadas de existência já vivi experiências brilhantes e, também, decepcionantes. Ví os meus pais sofrerem sem eu nada poder fazer para evitar. Tive que deixar a minha terra natal, passei privação, fiquei desempregado, fui humilhado, trabalhei em empresas públicas e privadas, enfim, já vivi momentos de fortes tempestades e tempos de grande bonança – e não foi fácil chegar aonde cheguei – desprovido de fortuna e sem nunca ter mergulhado em esquemas de corrupção, apesar de eu ter assumido por diversas vezes cargos públicos de primeiro escalão.
Porém, dentre tantas, o momento mais humilhante que já passei foi não ter o direito de ver o feto do meu filho, cuja morte foi provocada pelo nascimento prematuro, aos quase seis meses, em consequência de problema gestacional. Quando este meu filho do sexo masculino nasceu, ele foi colocado agonizando sobre o tórax da mãe. Logo depois entrou em óbito e foi levado por uma enfermeira, em uma maternidade da cidade de Arapiraca, que logo o colocou dentro de um recipiente (vidro) com formol e o vendeu para uma feira de ciências. Quando consegui entrar na maternidade pública para vê-lo, só fiquei sabendo da notícia que uma funcionária já o havia levado.
Muito constrangido, depois de fazer uma investigação, fiquei sabendo que era costume das enfermeiras daquela maternidade venderem fetos para exposição em feiras de ciências. Sabe por que aconteceu esta coisa horrrenda? Porque eu ficara desempregado e havia gasto com tratamento médico e medicamentos todo o dinheiro que havia recebido de idenização trabalhista e, por isso, não tive dinheiro para pagar a uma maternidade particular, na ocasião. Estou fazendo esta revelação pública pela primeira vez e sentindo, ainda, o mesmo constrangimento e humilhação que senti há trinta anos.
Já fui integrante de movimentos, já fui líder estudantil e já participei de grupos culturais, religiosos e políticos com atuação em Pão de Açúcar e em outros municípios alagoanos. E na minha trajetória, na qualidade de ser humano, já cometi muitos erros e “bati com a minha cara na parede”.
Até já acreditei em promessas categóricas de políticos inescrupulosos, enganadores e traidores do povo. Mas confesso que todas as minhas experiências vividas – boas e ruins, doces e amargas – amadureceram o meu ser e deram-me uma ampla visão do mundo.
Hoje sou feliz e grato a Deus pelas coisas que tenho e pelas coisas que perdi – e se as perdi, não eram minhas, certamente.
Outra lição adquirida durante todos esses anos em que tenho os livros como os meus mais fiéis companheiros: o indivíduo que lê e estuda permanentemente adquire uma imensurável capacidade de enxergar as coisas que estão ao seu redor e até mesmo as coisas que estão distantes. Os livros levam o indivíduo a contemplar o futuro como se fosse profeta. O conhecimento torna a consciência resistente a algemas. Isso é magnífico!
Aproveito, nesta data marcante da minha existência, para agradecer ao meu saudoso pai (João Fialho de Mello – in memoriam) e à minha mãe (Helena Silva Fialho, hoje beirando os 92 anos de idade), à minha esposa e companheira Vânia Oliveira Rezende, às minhas irmãs e irmãos; aos meus filhos e às minhas filhas; aos meus netos (Maria Vitória, Luma, Bernardo e Heloísa); aos meus genros e noras; aos meus sobrinhos (as) primos (as) e amigos(as) que estão sempre presentes na minha vida. Também quero agradecer às minhas ex-esposas, pois elas deram importante contribuição para o meu crescimento como pessoa. Enfim, agradeço aos meus ex-amigos com os quais, por um ciclo, comunguei dos mesmos ideais, e, também, aos meus êmulos que, ao me atacarem com palavras caluniosas e difamatórias, tornam-me mais convicto que semear o bem é organizar a única bagagem que podemos levar para o outro lado da vida.
Por este motivo, hoje chego aos 60 anos com muita vontade de viver e cheio de planos importantes para colocar em prática em prol da humanidade. Por este motivo, posso declarar com muita tranquilidade e firmeza – Sexagenário sim! Superado não!


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