Pão de Açúcar e a tradicional Festa de Bom Jesus dos Navegantes
As antigas comemorações, o Velho Chico e a grande saudade de um tempo que ficou para trás. Conheça um pouco da história da maior festa do interior de Alagoas
Imagem do Bom Jesus dos Navegantes - Pão de Açúcar (AL)... Foto: Reprodução
A Festa de Bom Jesus dos Navegantes era, inicialmente, apenas um evento popular, de cunho religioso, conhecido como Festa de Reis, e não dependia de recursos da Prefeitura Municipal de Pão de Açúcar para ser realizada, sendo patrocinada com espórtulas oriundas dos fiéis, estando inclusos os senhores fazendeiros que moravam nas comunidades rurais pertencentes à Paróquia de Pão de Açúcar. Nessa época, São José da Tapera, Palestina e Monteirópolis e Jacaré dos Homens pertenciam ao município pão-de-açucarense.
Igreja Senho do Bonfim - Pão de Açúcar(AL). Foto: Reprodução/Google
As comemorações sempre precediam o sábado e domingo, iniciavam na primeira semana do mês de janeiro, a partir do dia dois, já que o “Dia de Reis”, ou “Dia dos Santos Reis”, comemorado em 6 de janeiro, tem origem na tradição católica que lembra o dia que Jesus Cristo, recém-nascido, recebeu a visita de três Reis Magos: Belchior, Gaspar e Baltazar, que vieram do oriente, guiados por uma estrela.
As atividades festivas se concentravam, quase que em sua totalidade, na Praça Senhor do Bonfim (João Pessoa), lugar onde está localizada a igreja de onde sai a procissão fluvial com a imagem do santo homenageado, no domingo, com destino ao rio São Francisco.
Procissão de Bom Jesus dos Navegantes - Pão de Açúcar (AL), em 1920. Foto: Acervo de "Antonio do Mestre"
Na época de sua criação, ainda no início do século passado, segundo narra o autor Gervásio Francisco Santos, no livro “Um Lugar no Passado, a “Igreja Senhor do Bonfim, que na época era uma simples capelinha, mas evocava algo belo nas festas das noites de reis, que eram patrocinadas por grupos distintos, e assistidas de ano para ano, por uma multidão incalculável, que permanecia comprimida em toda a área da referida Praça”.
O escritor acrescenta, ainda: “A Festa de Reis tinha um entusiasmo extraordinário e atribuía-se cada noite desses dias a uma classe ou profissão. Todos os anos a distribuição obedecia a seguinte ordem: 1ª das Moças; 2ª dos Rapazes; 3ª dos Casados e 4ª dos Artistas. Desse modo, havia uma disputa acirrada das comissões representativas de cada classe ou profissão, no sentido de esmerar-se com brilhantismo na ornamentação da Praça e da Igreja, com a finalidade de emprestar maior pompa a sua noite”.
O transporte de tração animal predominava naquele tempo e, por isso, as pessoas, que não eram poucas, se deslocavam das comunidades rurais para a cidade montadas em carroças de boi e a cavalo.
A festa era abrilhantada pela Banda de Música local que executava dobrados musicais nos horários das cinco da manhã, doze e dezoito horas, acompanhados de espocar de bombas e girândolas de foguetes.
Procissão de Bom Jesus dos Navegantes - Porto de Pão de Açúcar (AL), em 1960. Foto: Acervo de "Antonio do Mestre"
As festividades eram oportunas para os fazendeiros da zona rural, intencionalmente, acompanhados das esposas e de suas filhas solteiras, chegavam a cidade com certa antecedência, para que os pais pudessem visitar os amigos mais íntimos residentes no centro urbano da cidade, enquanto suas filhas cumpriam seus deveres de cristãs e prestavam, ainda, seu culto ao deus Cupido.
Enquanto os adultos buscavam as atividades religiosas, as crianças escolhiam o “curri” (carrocel), as guloseimas e outros divertimentos compatíveis com a idade, estando todas essas opções disponíveis na Praça Senhor do Bonfim, que mais parecia um formigueiro humano, devido ao grande fluxo de pessoas.
A partir da inauguração da estátua do Cristo Redentor, em 29 de janeiro de 1950, obra de arte construída no Morro do Cavalete pelo escultor João Damasceno Lisboa, as pessoas que visitavam a cidade de Pão de Açúcar, por ocasião da Festa de Reis, aproveitavam a oportunidade para visitar o Cristo, pagar suas promessas aos pés da imagem.
Navio Comendador Peixoto e outras embarcações. Procissão de Bom Jesus - Prporiá(SE). Foto: Reprodução/Google
E foi a partir da construção do monumento Cristo Redentor que a exclusividade religiosa do evento foi abrindo espaço para o turismo, pois antes da imagem existia apenas uma grande cruz no topo do morro.
Com o passar do tempo a programação foi recebendo algumas inovações, a exemplo da mudança do nome (Festa de Bom Jesus dos Navegantes), introduziram a Corrida de Canoa, sendo esta uma iniciativa de personalidades, na época, ligadas à Colônia de Pescadores, destacando-se os nomes de Cícero Pinheiro, Felinto Capoeira, João Buzano, Odilon de Terto, Ernesto da Silva Pereira (Galego) e outros, os quais contavam com o apoio de alguns comerciantes locais, dentre esses, Manoel Mendes Pastor (Manoelito).
Também transferiram as comemorações, com o aval da Paróquia local, para a segunda semana do mês de janeiro, para evitar a concorrência com as festas de Penedo e Propriá.
Lancha Tupan - Foto: Acervo de "Antonio do Mestre"
A partir do ano de 1977, na gestão do então prefeito Eraldo Lacet Cruz, verificou-se uma concentração muito grande de pessoas na Praça do Bonfim durante os dias de festividades, sem que o local pudesse comportar o crescente público, fato que provocou a migração de grande quantidade de pessoas para a orla fluvial, embora na “Rua da Frente” não existisse qualquer tipo de diversão para os que migravam lá.
É bem provável que a ventilação para aliviar o forte calor, as paisagens fluviais e os “flirts” entre os jovens tenham sido os principais motivos desse deslocamento de público da superlotada Praça Senhor do Bonfim para a Avenida Ferreira de Novais.
Por iniciativa do prefeito Eraldo Lacet Cruz, depois de ouvir alguns assessores e o padre, removeram os parques de diversão para a orla. Essa iniciativa provocou um fluxo grande de pessoas na “Rua da Frente”, principalmente as crianças e os jovens, onde permanece até os dias de hoje.
A partir desta mudança, a Praça Senhor do Bonfim ficou apenas com as atividades religiosas, criando, assim, mais espaço para os participantes que preferiam ficar concentrados mais próximos à igreja.
Construção do Cristo Redentor - P. de Açúcar. Foto: Acervo "Antonio do Mestre"
Durante as gestões dos prefeitos Elísio da Maia (1983 a 1988) e Elísio Sávio dos Anjos Maia (1989 a 1992) a Festa de Bom Jesus dos Navegantes preservou as características de evento religioso e cultural, assim como sempre defendeu a comunidade católica pão-de-açucarense, sndo este, talvez, o principal motivo para não ter ocorrido inovações durante este período.
Em 1993, no primeiro ano de gestão do então prefeito Antonio Carlos Lima Rezende (Cacalo), pela primeira vez foi contratado um trio elétrico para abrilhantar a programação musical da Festa de Bom Jesus dos Navegantes. Neste ano, o Trio Elétrico Totozão, da cidade sergipana de Propriá, abrilhantou a festa que contou com shows musicais na orla fluvial, precisamente nas imediações do Iate Clube Pão de Açúcar, pois os shows musicais, considerados profanos, passaram a ser realizados na orla fluvial. Também foram criadas várias competições para abrilhantar as festividades, dentre essas: Maratona de Reis, prova de natação, prova de remo, corrida de bicicleta, corrida de jumento e futebol society, volei de praia e futevôlei. A partir daí, todos os anos, durante a Festa, a Prefeitura vem sendo a responsável pelos shows musicais gratuitos realizados na “Rua da Frente”. Durante as duas gestões do prefeito Cacalo (1993 a 1996/2005 a 2008) foram realizadas mudanças com o objeto de inovar a "Festa de Reis" que passou definitivamente a ser vista como um evento religioso, cultural e turístico.
Durante a gestão do então prefeito Jasson Silva Gonçalves (2009 a 2012) foi inserida na programação festiva, precisamente no palco instalado na orla fluvial, um show musical católico, que conta com a presença de uma atração ligada ao canal televisivo Canção Nova.
Também foi na gestão do prefeito Dr. Jasson que os integrantes da Comissão Organizadora deste evento passaram a utilizar radiocomunicadores para facilitar a organização da festa. Neste período foram realizadas apresentações culturais na Praça Senhor do Bonfim, a pedido do monsenhor Petrúcio Bezerra de Oliveira, o pároco local. O artesanato local passou a ser mostrado destacado em exposições públicas que foram realizadas na Praça Senhor do Bonfim e na Praça da Matriz, abrindo espaço para a comercialização de trabalhos artesanais e a valorização dos artesãos locais.
Imagem do Bom Jesus dos Navegantes conduzinda na balsa. Foto: Reprodução/Google.
No decorrer das gestões do prefeito Jorge Dantas, nos períodos de 1997 a 2004 e de 2013 a 2016, foram feitas inovações muito importantes na programação festiva, dentre essas: prova de natação, prova de remo, futebol society, corrida de bote de um pano, apresentações culturais na Praça do Bonfim, premiação aos canoeiros no Bar Toca do índio (em homenagem ao saudoso Odilon de Terto), Sexta Cultural e outras, além da mudança de horário da tradicional procissão fluvial, que passou para as 8 horas da manhã de domingo (a partir de 2015).
Em 2017, com a instalação da gestão do prefeito Flavinho Almeida, foram introduzidas novas mudanças pela Prefeitura, principalmente na estrutura da festa, incluindo a transferência do palco de atrações musicais para a praça localizada em frente ao Paço Imperial.
Também ocorreu o retorno de parques de diversão para trechos antes ocupados por estes, na Avenida Ferreira de Novais, nas proximidades do Iate Clube. A concentração de paredões na Avenida Bráulio Cavalcante foi liberada, também, e os locais de realização de shows musicais, apresentações culturais e atividades religiosas passaram a ser chamados de “polo”. A entrega da premiação aos vencedores da tradicional Corrida de Canoa saiu da “Tocado Índio” e passou a ser feita em uma barraca instalada na orla fluvial (beira do rio) pela Prefeitura.
Certamente outras inovações vão continuar ocorrendo na edição deste ano e em outras que serão realizadas durante a gestão do atual prefeito, isto é, em 2019 e 2020.
E por falar em Velho Chico, é importante destacar que a Procissão Fluvial de Bom Jesus dos Navegantes, no passado, em Pão de Açúcar, contava com a participação de dezenas de canoas de tolda e chatas, além do navio Comendador Peixoto, das lanchas Tupan, Tupy e Tupigy e de uma grande quantidade de canoas de pescaria. Tempo em que o Velho Chico era muito vigoroso e suas enchentes periódicas enchiam as lagoas que garantiam muita fartura para todas as classes de moradores.
Corrida de Canoa em Pão de Açúcar (AL). Festa de Bom Jesus dos Navegantes. Foto: Divulgação
Assim sendo, cortejar a imagem do Bom Jesus era um ato de devoção e um gesto de gratidão dos proprietários destas embarcações e dos próprios pescadores.
Nos dias de hoje a devoção continua, porém, em menor escala. E a imagem do santo homenageado continua sendo conduzida em procissão numa das balsas da família Silva Gonçalves. E poucas embarcações participam deste tradicional cortejo religioso, assim como se tornou reduzido o número de fiéis que o acompanham.
O próprio Velho Chico já não é o mesmo de outrora. Atualmente ele se encontra agonizando, perdeu a força, não enche suas lagoas e nem produz fartura para matar sequer a fome dos que dele são dependentes.
Agora não mais existe aquela encantadora paisagem formada por canoas de panos abertos a cruzarem as águas do antigo Opara, que semelhantemente a borboletas de asas multicoloridas, impulsionadas pelos ventos, a saudar este maravilhoso “manancial divino”, que continua matando a sede de milhões de pessoas, embora continue sendo monstruosamente agredido e desrespeitado pelo homem.
Oxalá, um dia, o milagroso Bom Jesus dos Navegantes, de tanto ouvir as desesperadas e insistentes súplicas dos pescadores, das lavadeiras, dos canoeiros e de outros sofridos ribeirinhos, revigore o Velho Chico e volte a encher as lagoas para a fartura geral dos moradores do Espelho da Lua.
Por Helio Fialho


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