Pão de Açúcar e a enchente do rio São Francisco
Com a cheia, o Velho Chico saiu da UTI e faz reaparecer espécies de peixes em extinção, além da esperança dos ribeirinhos, ainda que isso seja por pouco tempo.

Fonte: Por Helio Fialho
'Ladeira de Zé Pinto' Foto: Notícia Quente/Helio Fialho
O rio São Francisco está chamando a atenção do Brasil, principalmente da mídia e dos ribeirinhos. Mas, desta vez, não é devido ao leito de morte e sim ao leito de vida, avolumado por causa das fortes chuvas que caíram sobre os estados de Minas Gerais e Bahia, provocando, assim, o aumento das vazões defluentes nas barragens de Três Marias (MG), Sobradinho (BA) e Xingó (SE).
Segundo Boletim emitido pela Chesf, no dia 21 deste mês, a vazão defluente do Reservatório de Sobradinho teve início, no dia 21, com 3.200m²/s, sendo que esta vazão permaneceu até o do dia 23. E do dia 24 até o dia 28, a vazão está em 4.000m²/s, quantidade de água suficiente para provocar uma enchente no Baixo São Francisco, fenômeno que não era visto há mais de 12 anos.
Com a calha do rio completamente cheia, agora pode-se ver totalmente submersos quiosques, casas, bares, restaurantes e outras estruturas construídas ao longo de suas margens. “O rio não invadiu nada, apenas tomou o lugar que sempre foi dele”, disse o pescador Wita dos Santos, que é proprietário de um quiosque que comercializa bebidas e petiscos nos finais de semana, na cidade de Pão de Açúcar. Apesar dos prejuízos causados pela enchente do Velho Chico, que deixou submerso seu ponto comercial muito bem frequentado por visitantes, o pescador Wita declarou, à reportagem do Notícia Quente, que está muito feliz com a cheia porque revigora o rio São Francisco.
Na 'Ladeira de Zé Pinto', as balsas 24 horas estão aportando. Foto: Notícia Quente/Helio Fialho
Na Rua da Alegria (Rua do Boga"), o Velho Chico está lambendo os quintais. Foto: Notícia Quente/Helio Fialho
Na Praia das Barracas (Porto Dutor Átila), as águas invadiram as barracas. Foto: Notícia Quente/Helio Fialho
Alguns quiosques foram retirados antes da enchente (Porto Doutor Átila) - Foto: Notícia Quente/Helio Fialho
A reportagem do NQ fazendo a cobertura da enchente, nesta quarta-feira(26). Foto: Notícia Quente/Helio Fialho
Praia da Bomba completamente inundada - Foto: Notícia Quente/Helio Fialho
Prejudicando as balsas
A enchente no Baixo São Francisco, provocada pela abertura das comportas da Barragem de Xingó, não está deixando satisfeitos alguns empresários do transporte fluvial, a exemplo dos proprietários de balsas 24 horas, em Pão de Açúcar.
Eles reclamam que as variações de vazões, contrariando a programação anunciada pela Chesf, por meio de cartas-circulares, vêm provocando enormes prejuízos à empresa que, baseada nas informações previamente anunciadas, investiu na organização de novos portos para as balsas, adequando-os à realidade atual do rio.
Contudo, devido às variações nas vazões defluentes, fora do anunciado pela Chesf, esses portos improvisados ficam impossibilitados de atracar as balsas porque a lâmina de água no local é insuficiente e, por isso, a área de navegação fica comprometida.
“Com o anúncio da Chesf sobre a cheia do rio, investimos na organização de novos portos para as balsas, para possibilitar o transporte fluvial (travessia) de veículos, contudo, devido a essas variações sem qualquer explicação e sem avisos, feitas pela Chesf, com o aval da ANA, tivemos que suspender a travessia de caminhões porque paramos as balsas grandes e estamos atravessando somente carros de pequeno porte, em uma balsa com capacidade para transportar três veículos pequenos em cada travessia, isso por causa das inesperadas oscilações de vazões, o que danifica os portos que improvisamos, devido à falta de lâmina d´água”, disse o empresário José Antônio Silva Gonçalves.
“Se a Chesf estivesse obedecendo à programação de vazões previamente anunciada, com base na qual organizamos os novos portos, não teria nenhum problema, porém, da maneira que estão fazendo, fugindo do programado, não existe condição de as balsas grandes atravessarem carros de grande porte, pois, a área do trajeto feito por elas fica comprometida por causa dos bancos de areia que danificam os motores e encalham as embarcações”, finalizou José Antônio Silva Gonçalves.
É importante destacar que a vazão defluente anunciadas pela Chesf, no Reservatório de Xingó, foi de 4.000m²/s, para o dia 24 deste mês, porém, segundo o empresário José Antônio Gonçalves, as vazões estão sendo modificadas sem justificativa e comunicado prévio aos usuários do rio.
“Ontem (dia 25), a vazão estava em 4.000m²/s, hoje eles reduziram, sem nenhum aviso e sem nenhuma explicação, para 3.200m²/s. Antes de ontem (24), à noite, a vazão foi para 4.500m²/s, inundando um dos nossos portos (porto Maria Duarte), que estava sendo usado. Devido a essa inundação, tivemos que mudar para outro porto (porto Zé Pinto), onde foi normal a travessia durante todo o dia, pois a vazão defluente praticada foi de 4.000m²/s e, nesta quarta-feira (26), sem nenhuma explicação, eles baixaram a vazão para 3.200m²/s, inviabilizando, também, este porto, que já apresenta bancos de areia, impedindo o trajeto das balsas grandes. Pela primeira vez na história tivemos que parar o transporte de caminhões nas balsas grandes, devido a essas oscilações praticadas pela Chesf”, finalizou o empresário.
Espera-se ao menos que a Chesf resolva este problema, já que deixou de resolver tantos outros considerados graves, ao longo de todo esse tempo, deixando os municípios ribeirinhos com suas economias fragilizadas.
Cheia e fartura
Segundo alguns moradores ribeirinhos, incluindo pescadores, a cheia está fazendo reaparecer espécies de peixes que estão em extinção, a exemplo de piaba, pirá e outros. As águas estão enchendo, também, algumas lagoas que, no passado, promoviam grande fartura para muitas famílias que sobreviviam da plantação de arroz e da pesca. E mesmo sabendo que se trata de uma cheia artificial, devido à abertura de comportas de barragens, os ribeirinhos estão felizes porque o Velho Chico saiu da UTI e está respirando melhor, ainda que sua recuperação seja por pouco tempo, a depender, principalmente, da abertura das comportas do céu, como ocorreu recentemente em Minas Gerais e Bahia.
Para as crianças e os adolescentes que nunca tinham visto o Velho Chico tão abundante, a novidade os atraem e os convidam, neste tempo dominado pelos aparelhos celulares, a fazer uma selfie para registrar a enchente. Veja abaixo Boletins e gráficos sobre vazões defluentes praticadas pela Chesf.
Foto: Reprodução/Redes sociais
Foto: Reprodução/Redes sociais
Foto: Reprodução/Redes sociais


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