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Pão de Açúcar: tradicional Festa do Povoado Santiago será neste sábado

Devido à pandemia da Covid-19, na programação oficial só constam novena e missa.


  Foto: Reprodução/Divulgação

Postado : 13/01/2021   /   por Helio Fialho

A tradicional Festa de Nossa Senhora Auxiliadora, a padroeira do Povoado Santiago, localidade rural banhada pelo rio São Francisco, no município de Pão de Açúcar, será realizada neste sábado (16).

Segundo os responsáveis pela festa, devido à pandemia da Covid-19, não haverá procissão. Apenas será realizada uma missa, às 18 horas, na igreja de Nossa Senhora Auxiliadora, que será celebrada pelo monsenhor Petrúcio Bezerra de Oliveira. O evento também não contará com atrações musicais.

No banner promocional da festa, consta orientação para que todos os frequentadores usem máscara de proteção, para evitar a contaminação.  A festa deste ano tem como responsáveis Celma Melo e família.

 

Povoado Santiago - em dezembro de 2016.  Foto: Helio Fialho

 

História e Homenagem

 

O Povoado Santiago, localizado à margem do Velho Chico, é um dos mais tradicionais do município de Pão de Açúcar, nas Alagoas.

Sua localização privilegiada oferece uma vista panorâmica de rara beleza, onde moradores e visitantes podem contemplar o rio São Francisco e a Ilha de São Pedro, onde está localizada a aldeia dos índios da tribo Xocó.

Ainda era possível, até o início de 1990, ver carros de boi transportando a produção agrícola dos moradores e algumas rezadeiras (benzedeiras) espantando o “mau olhado” e curando a “espinhela caída” e outras doenças da crença popular, que atingiam as crianças e os adultos das comunidades rurais e das periferias da cidade.

No Povoado existia, também, uma lagoa que sustentava os moradores com a grande produção de arroz. Nesta época, grandes quantidades de peixes das diversas espécies eram pescadas no rio e na lagoa. A “Lagoa de Santiago” hoje não mais existe por causa da construção da Barragem Xingó, no período de 1987 a 1994. Os cardumes e os pescadores locais também desapareceram.

A padroeira da comunidade é Nossa Senhora Auxiliadora, comemorada com muita festa em um dos finais de semana do mês de janeiro. E a tradicional bandinha de pífanos, um dos folclores da localidade, sempre se apresentava com seus instrumentos rústicos durante o dia inteiro na calçada da igreja. À noite, em um salão, um bom sanfoneiro promovia o forró pé de serra para os participantes da festa.

Com a chegada das coisas modernas, desapareceram a bandinha de pífanos e o forró pé de serra, dando lugar às bandas urbanizadas.

Até o início dos anos de 1980, um tipo de cadeira artesanal, conhecida como “puta ligeira” era fabricada pelos artesãos Luiz Estevão e Antônio Ferreira, velhos conhecidos moradores da localidade. Durante a confecção das “putas ligeiras” eles contavam muitas histórias que fazem parte das lendas e mistérios do sertão.

Durante longos anos, na época em que a produção de arroz era abundante no Povoado Santiago, o prato preferido dos moradores era o rubacão, conhecido popularmente como “arribação”, uma mistura de arroz e feijão que, levada ao fogo, resulta numa saborosa comida. Este prato era servido com carne guisada (galinha de capoeira, boi, porco) e farofa amarela feita de caldo de carne.

Dentre as dezenas de casas do lugarejo, duas tornaram-se famosas por servirem rubacão aos visitantes: a de Cícero Alves Carvalho, conhecido como “Cícero de Oseias”, e a de Antonia Rosa, conhecida popularmente como “Tonha Rosa”. Nos dias de festas, pricipalmente estas duas casas eram muito visitadas, uma espécie de parada obrigatória para refeições gratuitas das pessoas que chegavam para participar da festa. "Cícero de Oseias" é o principal líder comunitário do lugarejo há muitos anos.

As ruas despidas de Santiago guardavam a simplicidade dos moradores, principalmente os mais antigos, a exemplo do saudoso Oseias Vieira Melo, que veio a falecer beirando os cem anos deidade. “Seo Oséias”, como era conhecido, costumava varrer a área onde fica localizada a igreja local e, ainda, gostava de limpar um estreito caminho de acesso à beira do rio, no porto da “Manchica”, cujo nome deve ter sido uma alusão a "Mãe Chica" ou “Mãe Francisca”, provavelmente uma antiga moradora ou proprietária de terras do Povoado.

E na época em que não existia água encanada na comunidade, este ancião transportava água do rio para sua casa, carregando latas d`água na cabeça. As atividades desenvolvidas por Oséias Vieira Melo deram a ele o privilégio da longevidade.

O Povoado Santiago foi rota de Lampião e seus cabras, pois era deste lugarejo que o “Rei do Cangaço” cruzava o Velho Chico em direção à fazenda da família Brito, localizada no lado sergipano.

Dizia a saudosa Clotildes Alves Carvalho, “Sinhá Clotilde de Quinho”, uma moradora da comunidade, que Lampião ao vê-la correndo, gestante, com medo dos cangaceiros, os quais chegaram ao lugarejo, quando de uma viagem a um dos coitos em Sergipe, foi logo exclamando em tom de admiração: “Pra onde vai aquela moça correndo com aquele bucho de piaba?” (o temível Virgulino Ferreira da Silva fazia referência ao avançado estado de gestação da moradora, que era filha do fazendeiro “Seo Quinho”, um dos coiteiros de Lampião, nesta região ribeirinha.

 

Dona Clotildes Alves Carvalho e Helio Fialho, no Povoado Santiago - Idos de 2000. Foto: Helio Fialho

 

Lampião e Maria Bonita.  Foto: Reprodução/Redes Sociais

 

O Batalhão de Lagoa

 

Na Lagoa de Santiago um grupo de moradores locais trabalhava no plantio de arroz, em sistema de meação, isto é, 50% da quantidade do arroz colhido eram destinados ao dono das terras e os outros 50% ficavam com o dono da plantação.

Diariamente, a depender da área de terra a ser fechada, o batalhão, formado por mulheres e homens, saia da casa do dono da plantação, para fazer o fechamento da terra de determinado membro da comunidade.

Na lagoa, o grupo passava o dia inteiro trabalhando e cantando as cantigas tradicionais do folclore local.

Geralmente o grupo saia da casa do “meeiro” com destino a área de terra a ser plantada na lagoa. Todos saiam cantando em alta voz alta as cantigas do cancioneiro ribeirinho dos

batalhões de lagoa do Velho Chico, onde o dono da plantação carregava consigo uma bandeira branca pendurada em uma vara. Ao chegar ao local desejado, isto é, na área de terra a ser plantada, os membros do grupo adentravam nas águas e a bandeira branca era fincada na área de terra a terra ser fechada. Para superar a longa e árdua jornada de trabalho sob o sol causticante, o batalhão cantava continuamente. Alguns puxavam os versos e outros respondiam. Assim homens e mulheres passavam o dia inteiro trabalhando na lavoura do arroz.

À hora do crepúsculo, o batalhão retornava da mesma maneira que partira pela manhã. Ao chegar à casa da “meeira do dia”, os membros começavam a dançar uma espécie de “coco de roda” ou “pagode de coco”. Durante e após o fechamento da terra (até retornar para casa), os membros do batalhão (mulheres e homens) bebiam vinho, cachaça e comiam rubacão com carne guisada (gado ou galinha de capoeira).

E assim, os tradicionais batalhões de lagoa, folclore muito comum nas localidades ribeirinhas que subsistiam da plantação de arroz, suportaram o sol causticante, porém não resistiram ao desaparecimento das lagoas do Velho Chico.

 

Batalhão de Lagoa, no Povoado Santiago - Idos de 1980.   Foto: Helio Fialho

 

Batalhão de Lagoa, no Povoado Santiago - Idos de 1980.   Foto: Helio Fialho

 

Raízes

Foi neste lugar que eu passei muitos finais de semana, participei de festas, tomei muito banho de rio, pesquei, divulguei ações comunitárias, contribui para a preservação da cultura local, fiz muitos amigos, compadres, comadres e tenho alguns afilhados e afilhadas.

O Povoado Santiago é a terra onde estão sepultados os bisavós e avós de minhas filhas Giovanna, Giordanna e Gianinni Fialho.

Em razão de sua bonita história e de sua gente simples e hospitaleira, o Povoado Santiago merece esta minha homenagem!

 

Povoado Santiago - 13 de novembro de 2020. Foto: Helio Fialho

 

 

 

 

Comentários

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  • MAXWELL MELO 14 de Janeiro de 2021 Muito boa essa materia! ????????
    Beatriz 14 de Janeiro de 2021 Lugar abençoado e cheio cultura!! Obrigada por descrever com tanto carinhoso.