O Aroma do Natal
Crônica natalina do autor Helio Fialho. O texto é um misto de fato real com ficção.
Foto: Reprodução
Encontrava-me em plena véspera de Natal na cidade paulista de Taubaté, no ano de 2005. Eu fazia companhia a duas pessoas que visitavam as lojas do centro da metrópole, em busca de produtos para a ceia natalina em família, uma das poucas tradições mantidas pelos paulistas.
Calçadas e casas comerciais pareciam invadidas por um formigueiro humano. As pessoas caminhavam apressadamente em ritmos eletrizantes e sequer tinham tempo para cumprimentar umas as outras ou ao menos expressar um gesto de cordialidade.
Mendigos perambulavam pelas calçadas na esperança de conseguir dos corações generosos alguns trocados. O trânsito movimentado e nervoso provocava engarrafamentos nas vias principais. Buzinas estridentes, barulhos dos motores, palavrões e gestos obscenos dos motoristas demonstravam que uma carga letal de estresse dominava aquele ambiente. O frenesi contrastava com as antigas canções natalinas que emergiam de dentro das lojas: umas cantadas por excelentes corais e outras apenas instrumentalizadas – Gingle Bells, White Christmas, Last Christmas, Happy Xmas, Noite Feliz, Ave Maria, Adeus Ano Velho – e outras faziam parte da coletânea.
De repente vieram-me as saudosas lembranças dos meus tempos de menino na pacata cidade ribeirinha onde nasci. Lembrei-me das caprichadas e criativas lapinhas que enfeitavam as residências; o “curri”(carrocel) com cadeiras e cavalinhos de pau coloridos; as “ondas” (gangorras) e dezenas de bancas repletas de guloseimas expostas à venda em plena Praça da Igreja Matriz: barquinhos de papel recheados com castanhas açucaradas, broas de goma, cocadas, “modinhas”, alfenins, fatias de bolos, garrafas de “amorosa”. Lembrei, também, de meus coleguinhas, todos vestidos em suas roupas novas de fim de ano, gastando o dinheiro presenteado pelos pais, padrinhos e madrinhas, na degustação prazerosa do lanche natalino. Já no fim da tarde, Papai Noel desfilava pelas ruas da cidade, na carroceria de um carro repleto de brinquedos comprados pelos próprios pais para presentearem os filhos e afilhados.
Às primeiras horas da noite, chegava à vez do pastoril se apresentar no coreto da Praça da Matriz, ou, na carroceria de um caminhão, uma espécie de palco improvisado. Tudo era muito simples, inocente e artesanal, diferentemente da realidade vivida nos grandes centros urbanos. O Natal dos tempos passados era desprovido de maldade, as crianças daquela época dormiam cedo, não frequentavam os bailes e tampouco consumiam bebidas alcoólicas e drogas. Assim era comemorada a festa natalina nas cidadezinhas do interior nordestino.
No luxuoso e o exuberante Natal das “selvas de pedras”, com exceção da miséria humana, tudo é sofisticado, mecanizado, onde a tecnologia e a industrialização impõem impiedosamente as transformações, pois a palavra de ordem é “cumprir metas”.
Nas ruas daquela metrópole paulista eu caminhei sentindo falta do espírito natalino, da verdadeira essência do Natal, pois a cidade estava tomada por transações comerciais, painéis multicoloridos e mensagens eletrônicas. Contudo, os pedintes continuavam a perambular de mãos estendidas e sem ser enxergados pelas pessoas que iam e viam apressadamente, apesar do período ser apropriado para a prática da generosidade cristã.
De repente, o barulho de um acidente usurpou-me o prazer de continuar recordando o Natal da minha infância. Pessoas corriam em direção ao local onde acabara de acontecer um atropelamento. Sobre aquela via superlotada de veículos um corpo encontrava-se estendido, sangrando muito. Também fiz parte dos curiosos. “Um carro atropelou um mendigo”, comentavam as pessoas assustadas.
Em fração de segundos um círculo de pessoas curiosas se formou no local da cena, onde estava um homem barbudo, maltrapilho, pés descalços, tez bronzeada pelo sol do dia-a-dia, cabeça ferida, olhos fitos para o céu, agonizando para a morte.
Ao dar o último suspiro, do corpo daquele “invisível social” desprendia-se um cheiro muito forte de perfume que impregnava o ambiente. Um policial aproximou-se e procurou identificar a vítima, puxando de seu bolso um documento muito envelhecido: “José de Jesus dos Santos, 33 anos”, disse o policial para o colega de corporação.
Eu sentia, assim como os demais curiosos, que cada gota de sangue a jorrar do corpo daquele mendigo impregnava os ares com uma entorpecedora fragrância, um aroma misterioso e contagiante de paz.
E enquanto as pessoas comentavam sobre o misterioso “aroma do natal”, um rabecão estacionava no local do acidente para fazer o recolhimento do cadáver. Minutos depois o corpo daquele mendigo foi transportado para o IML e, dias depois, por não aparecer ninguém da família, ele foi sepultado numa cova rasa, reservada aos indigentes.
Porém, a misteriosa essência exalada em pleno Natal, do corpo daquele desconhecido mendigo, permanece até hoje aromatizando minhas lembranças e deixa uma sábia lição: O Jesus que veio ao mundo numa manjedoura não está nos tesouros, nas festas pomposas e nos ambicioso projetos humanos. Jesus, o símbolo-mor do Natal, está na humildade do homem, na simplicidade da criatura humana, nos corações generosos, puros e bondosos, independentemente de cor, raça, idade, nacionalidade, sexo, religião e posição social!
Foto: Reprodução


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