Morre “Manoel do Leite”, aos 100 anos de idade, no povoado sergipano de Bonsucesso
Durante muitos anos o falecido vendeu leite na cidade alagoana de Pão de Açúcar
Manoel Valentim dos Santos (Mané do Leite) Foto: Divulgação
Faleceu, na noite desta sexta-feira (16), beirando os 101 anos de idade, no Povoado Bonsucesso, município de Poço Redondo (SE), onde morava com a família, o senhor Manoel Valentim dos Santos, conhecido popularmente como “Manoel do Leite” ou “Seo Mané do Leite”.
Para quem não sabe, ele foi um filho do vaqueiro do coronel Luiz Tavares, o afamado “Coronel Lulu”, dono do então opulento casarão construído no século XIX à margem do Velho Chico.
Este cidadão humilde, não letrado, trabalhador de roça, possuidor de uma educação exemplar e de fino trato para com as pessoas, durante muitos anos frequentou a cidade de Pão de Açúcar, para vender leite a um número grande fregueses.
Nesta época, o rio São Francisco era caudaloso e as cheias naturais impunham desenvolvimento econômico aos municípios ribeirinhos e gerava fartura às dezenas de lagoas existentes na região.
E “Seo Mané do Leite” todos os dias atravessava o Velho Chico, ora numa “chata”, ora numa canoa de pescaria, para chegar ao destino desejado.
Nessa época, eu era um menino de cabelos longos que vivia a jogar bola na “croa” e a brincar de “garrafão” e “rouba bandeira” com outros meninos de minha idade. Era assim que a meninada de minha época brincava.
E todas as manhãs, logo cedinho, “Seo Mané do Leite” chegava à porta de nossa casa, dava bom dia e perguntava por meu pai, o farmacêutico João Fialho de Mello, do qual também era amigo e freguês na farmácia. “Galeguinho, cadê o doutor?”, perguntava o pacato vendedor de leite.
Não muito raro ele dava um dedo de prosa com o amigo “Joãozinho Fialho” e conversavam sobre assuntos diversos, principalmente sobre assuntos da roça, da família e de como educar os filhos. E quando tinha bom inverno, presenteava meu pai com milho verde, feijão de corda, melancia e abóbora.
Certa vez ele deu de presente ao meu pai uma pequena e antiga lousa preta, que fora muito usada por ele e os irmãos na escola. Ele, apesar de indouto, valorizava muito a educação escolar.
E ao saber da notícia da morte deste centenário cidadão de bem, que bons serviços prestou às famílias pão-de-açucarenses, vendendo leite puro e de boa qualidade para alimentar crianças e adultos, coube-me a responsabilidade de, em nome da família “Silva Fialho”, que tem como matriarca “D. Helena”, prestar-lhe uma justa homenagem.
As lembranças que guardo deste trabalhador estão muito vivas na minha mente. “Manoel do Leite” era um homem de estatura alta, pele morena e queimada pelo sol, chapéu na cabeça, um par de alpargata sertaneja nos pés (hoje “xô boi”), roupa cáqui ou de mescla azul. Era desta forma que ele costumava andar em Pão de Açúcar, para onde vinha diariamente entregar o leite à clientela e às segundas-feiras frequentava à feira livre.
Boas lembranças eu guardo deste cidadão honrado que soube criar os filhos e sustentar a família com a força do trabalho honesto e com a ajuda de Deus.
Na época em que ancorei o Jornal Jaciobá através da Rádio Jaciobá FM, no período de 1996 a 2004, tinha “Seo Mané do Leite” como meu ouvinte assíduo. E sempre eu estava a “mandar um alô” para ele, inclusive cheguei a fazer-lhe uma visita no Povoado Bonsucesso.
Ele agora partiu para o outro lado da vida. Deus o permitiu que ultrapassasse os 100 anos de idade, chegando aos 100 anos de 10 meses – quase chegando aos 101. E o Povoado Bonsucesso está entristecido com a morte deste cidadão considerado um patrimônio vivo da comunidade e, por isto, ele deixa uma lacuna impreenchível no seio da sociedade local.
Certamente sua longevidade está relacionada ao homem pacato, de boa índole, dedicado à labuta no campo e com hábito alimentar sadio.
O sepultamento será neste sábado, às 16 horas, no Povoado Bonsucesso, onde o viúvo Manoel Valentim dos Santos residia.
À família enlutada desejo votos de pesar e rogo ao Espírito Santo que console aos que pranteiam. Ao imortalizado vendedor de leite, criatura sábia, prudente e exemplar, que soube cruzar cem anos de existência, que o Pai Supremo o receba na Mansão Celestial. Descanse em paz, amigo e imortalizado “Manoel do Leite”!!!






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