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'Lágrimas Sinceras'

Artigo de autoria de Eduardo Tavares – sobre a triste situação do rio São Francisco


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  Fonte: Por Eduardo Tavares*

O rio São Francisco assoreado...

O rio São Francisco assoreado...   Foto: Reprodução/Google

Postado em: 28/04/2018 às 07:06:49

As chuvas que têm caído, nos últimos dias, no Nordeste brasileiro, animam os sertanejos e, sobretudo, os ribeirinhos do São Francisco, que estão entusiasmados com a razoável situação das represas e, mormente, do lago de Sobradinho que já apresenta um acúmulo de mais de 37% de sua capacidade hídrica!

Na verdade, a situação continua preocupando como antes! As últimas águas em nada contribuíram para a saúde do "Velho Chico"! Para um rio que, quando descoberto, no ano de 1 501, tinha um deflúvio de 11.000 (onze mil) metros cúbicos por segundo e hoje, mesmo com as ultimas chuvas, conta com uma vazão de míseros 600 (seiscentos) metros cúbicos por segundo, não há o que comemorar!

O rio encontra-se em estado senil! Está praticamente morto! O aquífero de Urucuia, que alimenta o São Francisco e seus principais afluentes, está pedindo socorro. Nós brasileiros não somos uma civilização hidráulica, como a China, a Índia, o Egito e mesmo o Estado de Israel. Esses países, há mais de dois mil anos, trabalham bem com o manejo de águas dos rios e lagos fazendo, inclusive, transposições, mas com sustentabilidade!!!

Muitos têm sido os desastres ecológicos ocorridos nos últimos tempos! O maior deles foi provocado contra o mar de Aral, na Ásia! O homem foi capaz de secar as águas de um mar interior que banhava inúmeros países asiáticos e que, há 20 anos, tinha mais de 500 (quinhentos) navios singrando suas águas ondulosas e a produção de pescados era gigantesca. Hoje, só o Cazaquistão mantém 8% do volume d'água original daquele que foi o maior lago interior do mundo. Outro desastre recente foi a morte do rio Eufrates, confome descrito em apocalipse, sobre o final dos tempos, pasmem, e levou junto o Jardim do Éden! O rio Colorado, nos Estados Unidos, chegou a morrer a 100 (cem) quilômetros de sua foz, no Golfo da Califórnia, no México!

Será que nós ribeirinhos franciscanos passaremos por isso? O pesquisador João Suassuna, da Fundação Joaquim Nabuco, de Pernambuco, tem afirmado que um rio morre pela foz! E é verdade! O "Velho Chico" que chegava forte em sua desembocadura no Oceano Atlântico, hoje tem sido invadido por ele!

Aquela musica do Luiz Gonzaga, lembra? Que diz, " O rio São Francisco vai bater no meio do mar", já não condiz com a verdade, pois o outrora Rio da Integração Nacional, perdeu a força de sua correnteza, a imponência das velas de suas embarcações, a soberania do seu caudal! Em todo Baixo São Francisco o que se pesca são peixes do mar! O surubim, a xira, o mandim quase que não mais existem. O homem, seu maior inimigo, desmatou suas margens, realizou milhões de captações do precioso líquido e continua depositando em sua calha os seus dejetos! Nos seus mais de 2.800 (dois mil e oitocentos) quilômetros de extensão, apenas uma única cidade marginal possui sistema de saneamento básico, que é Lagoa da Prata, em Minas Gerais.

Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, propus, esta semana, em reunião ordinária, que durante o transcurso deste ano de 2018 nós debatamos sobre o Rio São Francisco, trazendo especialistas no assunto e procurando envolver os estados cortados pelo importante curso d'água. Quem sabe não ajudamos o "Velho Chico", o bem natural mais valioso do Nordeste? Gente, os nossos recursos naturais são finitos e a crise hídrica mundial é uma realidade! Temos que cuidar dos nossos mananciais, dos nossos biomas! Não temos outra casa para morar que não seja a Terra, e não haverá uma segunda "Arca de Noé". Vamos lutar até o fim pela sobrevivência do rio São Francisco, pois, conforme prega o ambientalista Jackson Borges, "mais vale preservar uma gota de suas águas, hoje, do que chorar uma lágrima por ele amanhã, mesmo que sincera!

 

 

Dr. Eduardo Tavares

* Possui graduação em Direito pela Universidade Federal de Alagoas (1985) e especialização em Direito Público (1999) pelo Centro Universitário CESMAC. Promotor de 1ª, Promotor de 2ª, Promotor de 3ª entrância e Procurador de Justiça, Procurador-geral de Justiça do Ministério Público do Estado de Alagoas entre os anos de 2009 e 2012, estando no exercício do cargo de Vice-Presidente do Conselho Nacional de Procuradores-Gerais (CNPG), para o Nordeste. Atuou ativamente na Associação do Ministério Público de Alagoas como Conselheiro Fiscal (1991/1993), Tesoureiro (1993/1995), Vice-Presidente (1995/1999) e Presidente nos biênios 1999/2001; 2001/2003; 2005/2007 e 2007/2009, quando foi Diretor da Confederação Nacional do Ministério Público (CONAMP) para o Nordeste. Foi Coordenador, Vice-Diretor e Diretor da Faculdade de Direito de Maceió e atualmente é professor do Centro Universitário CESMAC. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Público e Penal. É membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, membro da irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Maceió, Ouvidor-Geral do Ministério Público, ex-secretário de Defesa Social de Alagoas, ex-prefeito do município de Traipu, AL.

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  • Antonio Vilas Boas 28 de Abril de 2018 Conheço de perto Dr. Eduardo Tavares, procurador de justica de escol, homem público digno, honrado, competente e grande administrador público, além de conhecedor profundo dos problemas que afligem o Rio São Francisco. É um homem que merece ter o seu nome sufragado nas próximas eleições, como digno representante do povo alagoano.
    Evangelina Oliveira 28 de Abril de 2018 É de encher os nossos olhos com a beleza e coerência de um texto tão bem elaborado, e por uma pessoa que tem um amor imenso pelo nosso Velho Chico. Parabéns Eduardo por ser essa pessoa tão preocupada e dedica a uma causa tão nobre e importante. O Brasil necessita de mais homens iguais a vc, orgulho de tê-lo como conterrâneo.
    Artur torres 28 de Abril de 2018 Excelente artigo! Parabéns pelo empenho na defesa desse nosso patrimônio. São de pessoas assim que precisamos no congresso nacional.
    Fernando 01 de Maio de 2018 Nem tudo está perdido, ainda há esperança! Fico feliz em saber que existe alguém preocupado com um assunto tão importante. Precisamos de pessoas assim, que defenda a buscas de soluções de problemas que tanto atingem os ribeirinhos do nosso "Velho Chico". Parabéns ao Dr Eduardo Tavares pela defesa desse povo tão sofrido!!!!