CULTURA

Índio, sertanejo e alagoano: Conheça mais sobre o grupo indígena Kalankó

Estudo realizado por mestrando da Ufal abordou a relação desses índios com a seca no Sertão de AL


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  Fonte: Portal Gazetaweb - Por Redação com Tárcila Cabral/Fapeal

Mestrando da Ufal fez estudo sobre o grupo indígena Kalankó

Mestrando da Ufal fez estudo sobre o grupo indígena Kalankó   Foto: Reprodução/Gazetaweb/Tárcila Cabral/Fapeal

Postado em: 19/04/2018 às 13:50:30

Uma pesquisa desenvolvida por um acadêmico da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) abordou as características e o modo de vida dos Kalankós, grupo indígena que vive atualmente na cidade de Água Branca, no alto Sertão do estado. O estudo "Os Kalankó: práticas tradicionais e a memória da seca no alto sertão alagoano", realizado pelo universitário Moisés Oliveira, contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal), que forneceu auxílio financeiro para que a tese de mestrado ganhasse vida, investigando quais singularidades deste povo seriam relevantes à composição da cultura alagoana. 

Neste dia 19 de abril, quando se comemora o Dia do Índio, o trabalho ganha destaque e ressalta a necessidade de que haja mais discussões em torno do tema, tendo em vista que quanto mais valor se agrega a esta cultura, mais se consegue preservá-la e impedir que se fragilize ainda mais.

Os Kalankós vivem numa das regiões mais áridas do Sertão alagoano, um local de complexa sobrevivência. Lá, o acadêmico sentiu a necessidade de conhecer as particularidades e as adaptações necessárias para se viver num ambiente tão controverso como o Sertão. O questionamento encontrou uma trajetória cercada por constantes migrações, que derivam da descendência de um antigo aldeamento situado em Brejo dos Padres, os Pankararu, e da miscigenação com outros povos alagoanos.

"A sua genealogia é explicada com a base de uma árvore onde o grupo mais antigo é visto como um tronco e, os mais jovens, resultado de diáspora, são vistos como as ramas", cita Moisés.

É a partir desta base que serão atribuídas as características culturais deste núcleo, descendentes dos Pankararu, que concentrou costumes e ritos religiosos similares.

Pesquisa in loco

A pesquisa buscou compreender como se davam as relações de memória com a seca, já que eles habitam uma região semiárida e vivenciaram conflitos. Os momentos de desgaste do povo indígena e da atenção do governo são alguns dos pontos mostrados, que geraram uma experiência de impacto negativo nos contatos iniciais nos anos de 1980 e 1990.

Segundo o acadêmico, os Kalankós, em tempos passados, eram um grupo indistinto dentro da população do Sertão, só que em 1998, eles ressurgem e se reafirmam publicamente enquanto uma etnia presente na região. Neste segmento, eles se tornam um público distinto, compondo frentes de serviço, porém com algumas contrariedades relativas aos equívocos do combate oficial à seca.

O estudo afirma que para se compreender a estiagem como um fator climático cíclico e recorrente, não se pode trabalhar buscando combater e sim conviver com a seca de forma técnica e inteligente. Através destas experiências, os Kalankós passam a se relacionar com outros grupos já políticos e organizados dentro da extensão no semiárido alagoano.

A partir da perspectiva de convivência com o semiárido, o grupo incorpora a reflexão sobre as tecnologias, introduzindo inovações na captação de água da chuva, e é aí onde se consegue melhorar a realidade e a situação com o meio ambiente. Através destas políticas, eles construíram cisternas que ficam aos fundos das casas e que captam a água da chuva, proporcionando mudanças nas relações com o ambiente e estruturas sociais também.

Na relação com as novas tecnologias e as formas de organização, o aldeamento está conseguindo vislumbrar a possibilidade de permanência no campo, onde a seca já não é um inimigo, mas um fenômeno compreendido e passível de convivência.

"Este diálogo não se trata apenas do conhecimento técnico enquanto saída ao determinismo geográfico e biológico. É também uma nova forma de se reorganizar não mais apenas enquanto sertanejo, mas enquanto como Kalankó e sertanejo também", frisa o estudioso. Este aldeamento integra a identidade do sertanejo no Brasil, da mesma forma como outros povos a compõem.

Experiência e Trocas Culturais

"A finalidade dos Kalankós é permanecer na terra, fortalecer rituais, solidificar a identidade e preservar a memória, porque é através da conservação histórica e cultural que se avança. Os moradores que vivem no entorno da região observam e entendem seus aspectos culturais, mesmo não fazendo parte da aldeia", aponta a tese.

Abordando as fragilidades do Sertão, o estudo ainda observa a migração como um tema recorrente e complexo, devido às condições hostis de sobrevivência. Isto é comprovado através da saída mais intensa dos jovens, quando eles atingem a idade adulta e partem. Há também um forte deslocamento para o corte da cana no litoral alagoano, e outro com rumo ao Mato Grosso, em épocas de colheita da laranja.

"A sociedade, não ocasionalmente, olha para o índio como uma alegoria folclórica, ensinada às crianças com rostos pintados e penas de cartolina na cabeça para o Dia do Índio. Deve-se trazer para o contexto político do Brasil grupos de sujeitos reais, que têm as suas demandas específicas, e representam grupos que lidam com vivências difíceis, como a seca, em nossa localidade. Configurar visibilidade a grupos que foram marginalizados durante muito tempo já simboliza um grande avanço, mas não se pode esconder o dilema das questões destas comunidades. Tratar da questão indígena é tratar da conjuntura nacional e do atual cenário político", afirma Moisés, que integrou a primeira turma de mestrado em Antropologia Social da Ufal.

 

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