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Homenagem póstuma a 'Manoel de Tuí', o imortalizado Papai Noel de Pão de Açúcar

Além de carteiro e Papai Noel, ele foi Rei Momo, criador do Bloco O Solitário, Palhaço, além de participar de procissões fazendo personagens bíblicas.


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  Fonte: Por Helio Fialho

Manoel Messias Neto, o imortalizado Papai Noel de Pão de Açúcar

Manoel Messias Neto, o imortalizado Papai Noel de Pão de Açúcar   Foto: Reprodução/Cortesia/ Arquivo Billy Magno

Postado em: 22/12/2022 às 10:58:08

Nada mais justo que, neste período natalino, render homenagem póstuma a uma pessoa que, enquanto viveu em sua terra natal, Pão de Açúcar, dedicou sua vida prestando serviços à sociedade. Trata-se do saudoso amigo, de longas datas, Manoel Messias Neto, conhecido popularmente como “Mané de Tuí” e “Manoel Carteiro”, falecido no dia 08 de novembro deste ano, na cidade de Nossa Senhora da Glória, estado de Sergipe.

Na plaga de Jaciobá, Manoel trabalhou durante quase três décadas na agência dos Correios e Telégrafos. Nessa época, eu dava aulas de inglês, no Colégio Cenecista Dom Antônio Brandão, e por isso, sempre que o encontrava nas ruas, entregando cartas, eu dirigia uma frase a ele, combinada e ensaiada em momentos de bate-papo. Please, mister postman,  look and see If there's a letter in your bag for me.”   (Por favor, senhor carteiro, olhe e veja se há uma carta, na sua bolsa, para mim). E ele respondia em inglês porque eu o havia ensinado a resposta monossílaba, embora o meu amigo carteiro não tivesse qualquer  intimidade com o idioma inglês. A depender se tinha ou não chegado carta para mim, ele, sorridente, logo respondia: “Yes” e “No”.  E por ser meu amigo, eu o chamava de “o carteiro bilingue”,  e ele começava a sorrir – porque Manoel Messias Neto era só alegria. Era um cidadão muito querido por todos (as): pessoas idosas, jovens e crianças. 

No Espelho da Lua, além de carteiro, Manoel foi Papai Noel, Rei Momo,  Folião, Palhaço e personagens bíblicas, coisas que ele fazia com dedicação e muita empolgação.

Ao aposentar-se, ele resolveu mudar-se para Nossa Senhora da Glória, a cidade de sua esposa Maria Ivanete Santana Messias,  no vizinho  estado de Sergipe. Nesse tempo, ele morava com a esposa e dois filhos, na Rua Odilon Pires de Carvalho (antiga Rua da Mangueira).

O tempo passou muito rápido, porém, as minhas recordações, deste meu amigo, continuam bem presentes.

Manoel Carteiro, em vésperas de Natal, trajado de Papai Noel, ao fim da tarde e início da noite, percorria as ruas de Pão de Açúcar, entregando presentes para as crianças, em suas residências e em dois clubes sociais ( AABB e Iate Clube. Esses presentes eram comprados pelos pais e Papai Noel entregava um a um, cumprindo sua missão, não montado no trenó em plena neve do Polo Norte, mas, sob o calor de mais de 40 graus da “Terra do sol, espelho da lua”, em pleno verão causticante do semiárido alagoano, cuja temperatura o deixava bastante suado. Não sei explicar a causa, mas devia ser algum problema de saúde, o fato de Manoel Messias Neto sempre ficar com as mãos excessivamente suadas e frias.

Manoel entregando um telegrama ao colega de Correios, Petrúcio Brito ("Peloia). Foto: Reprodução/Cortesia/Will

O carteiro Manoel Messias Neto uniformizado, na Rua Padre Soares Pinto. Foto: Reprodução/Cortesia/Will.

O carteiro Manoel Messias uniformizado, em frente à agência dos Correios e Telégrafos. Foto: Reprodução/Cortesia/Will.

E a alegria tomava conta do ambiente, onde Papai Noel, cercado por crianças e pais, sorria o tempo todo, no êxtase da grande felicidade natalina,  que a festa exigia. E assim foram muitos natais com a presença deste nosso imortalizado Papai Noel, que encontra-se eternizado em nossas lembranças.

O nosso querido Papai Noel teve o privilégio de poder se transformar em Rei Momo, durante os carnavais pão-de-açucarenses, nos idos de 1980 e 1990. Ele abria os festejos, desfilando, à noite, pelas principais artérias da cidade, conduzindo “a chave da cidade”, acompanhado de  uma orquestra e blocos carnavalescos, onde o frevo contagiava os carnavalescos participantes.

Durante os quatro dias de folia, Manoel se fantasiava de bebê, usando fralda e chupeta, e botava seu Bloco O Solitário na rua, que era composto de três integrantes: Manoel Messias, a filha Wellitânia e o filho Williams (“Will”). O Bloco O Solitário apenas desfilava silencioso, sem instrumentos musicais, cujos componentes, maquiados com certa extravagância, em clima de profunda melancolia, chamavam a atenção das pessoas, que os achavam muito divertidos.

É uma pena, que o Papai Noel, o Rei Momo, o Bloco O Solitário, e o Palhaço das festas infantis tenham passado, assim como passaram os antigos natais e carnavais de Pão de Açúcar!

Dessa época sinto muita saudade. Contudo, Manoel Messias Neto e seus personagens natalinos e carnavalescos para sempre serão lembrados, da mesma maneira que para sempre será lembrado o nosso carteiro, devidamente uniformizado, a passos apressados, percorrendo as ruas de Pão de Açúcar, cumprindo sua nobre missão, entregando cartas e telegramas.

Para quem não sabe, “Manoel de Tuí” trabalhou, também, no Cine Palace, durante o período em que o saudoso piranhense Erasmo Rodrigues (“Doutor Erasmo”) foi o proprietário deste tradicional cinema. O meu querido primo-irmão Darival Lira, nessa época, também, amigo de Manoel, trabalhou no Cine Palace e era um dos funcionários de confiança de Doutor Erasmo.

Recordo-me, ainda, das vezes, não raras, que sentamos para tomar uma cerveja, em fins de semana e feriados, onde ele sempre me deixava atualizado sobre as “moças bonitas” estavam a morar ou a visitarem a nossa cidade. Ele sabia passar tais informações com muita precisão, pois, sempre estava a paquerar algumas jovens que aqui chegavam para estudar ou passar férias. Até que um dia, ele trouxe a informação que estava namorando uma jovem, que se chamava “Ivanete”. E foi com esta sergipana que o nosso querido “Manoel Carteiro” se casou e teve dois filhos.

O Papai Noel, Manoel de Tuí, entregando uma bicicleta ao menino Billy Magno, na AABB. Foto: Reprodução/Billy Magno.

Papai Noel (Manoel) entregando uma bicicleta à filha de José Carlos Lima, na AABB. Foto: Reprodução/Billy Magno.

Papai Noel (Manoel) entregando presentes aos filhos dos bancários do BB, na AABB. Foto: Reprodução/Billy Magno.

 

Três histórias inesquecíveis

Nesta minha viagem pelo túnel do tempo, quero destacar três grandes momentos, os quais o amigo “Manoel de Tuí” e eu passamos juntos.

Certo dia, a convite do amigo José Carlos Rodrigues (“Motorzinho”), passamos um fim de semana na cidade de Santana do Ipanema, onde conhecemos o amigo Sérgio que, na época, era o gerente da Casa do Fazendeiro. Este cidadão de bem, cunhado de “Motorzinho”, apreciava ingerir Rum Montilla com Coca-Cola, que era a bebida da moda, naquele tempo.  Por conta de Sérgio, eu e Manoel ficamos hospedados no “Hotel de Dona Branca”, em pleno centro da cidade. Passamos (eu, Manoel, Motorzinho e Sérgio) passamos dois dias bebendo “água que passarinho não bebe” e paquerando as moças bonitas de Santana do Ipanema, incluindo as filhas da dona do hotel, sem que as duas jovens percebessem os nossos olhares direcionados a elas. Nesse tempo éramos apenas dois jovens, estudantes e desempregados.

Manoel estudava no Ginásio Dom Antônio Brandão. Nessa época, ele cursava a 8ª série (tenho dúvida se foi em 1978 ou 1979) e estava prestes a ser reprovado em Matemática, pois, segundo ele, “a matéria não entrava em sua cabeça”. E, devido suas notas baixíssimas, o professor João Gomes da Silva (“João de Luzia”), o havia alertado para uma possível reprovação no fim do ano letivo. Ele, na tentativa de ser aprovado, disse-me que procuraria Frei Damião, que estava vindo a Pão de Açúcar, para realizar a Santa Missão, na Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus, a convite do Padre Petrúcio Bezerra de Oliveira.

Manoel Messias Neto havia decidido colocar sua fé em prática e pediria para o santo frade italiano rezar em sua cabeça, para ele aprender matemática. Eu o adverti que este tipo de milagre não era impossível, porém, muito difícil de acontecer, até porque não se tratava da cura de uma enfermidade. Também o orientei sobre algumas técnicas para ele obter uma aprendizagem mais eficiente, no tocante à difícil matéria. Mesmo assim, o amigo Manoel, que ainda não havia ingressado nos Correios e Telégrafos, deixou de ouvir os meus conselhos e, por isso, partiu em busca do milagre pretendido. E logo no primeiro dia de Santa Missão com a participação de Frei Damião e Frei Fernando, o amigo Manoel Messias Neto chamou-me para eu o acompanhar até à igreja. Chegando lá, ele rejeitou a confissão com o Frei Fernando e preferiu enfrentar uma fila extensa, para se confessar com o Frei Damião, a fim de o religioso impor as mãos sobre sua cabeça, objetivando aprender matemática e passar de série, no fim do ano.     

Depois que o “aluno” recebeu a bênção de Frei Damião, ele não mais pegou no livro e caderno, para estudar os assuntos matemáticos. Ele sequer buscou tirar suas dúvidas com o professor João de Luzia, pois, achava o estudante Manoel Messias Neto,  que já estava aprovado, pelo fato de ter o santo frade rezado em sua cabeça. E, no fim do ano letivo, vieram as provas e veio, também, a anunciada reprovação do aluno, que se esqueceu de estudar, pensando somente no milagre, que não aconteceu.  

E o mais importante desta experiência vivida por Manoel Messias Neto é que ele compreendeu que as coisas não funcionam assim e, por isso, ele não perdeu sua fé em Deus e permaneceu frequentando com assiduidade às missas dominicais, na Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus.

Em um dos domingos do ano de 1983, eu e o amigo “Manoel de Tuí” , bebíamos em uma das mesas do bar O Redondo, ouvindo o LP Cavalo de Pau, do cantor Alceu Valença, que estava fazendo muito sucesso, na época. Lá para as tantas, já apresentado os efeitos etílicos, sempre pedíamos que o proprietário do recinto repetisse algumas músicas, incluindo Tropicana e Como Dois Animais. E Manoel, muito eufórico, completamente “sob o efeito do deus Baco”, porque não costumava beber em excesso, insistia em ouvir repetidas vezes apenas uma música, que mal chegava ao término e ele logo dizia em voz alta: “Bote Onça Pintada... bote Onça Pintada!” E prontamente a música “Como Dois Animais” tocava novamente, pois o proprietário compreendia muito bem que o nosso eternizado Papai Noel se referia ao sucesso “Como Dois Animais”. O nosso Rei Momo, talvez, estivesse recordando que, em uma de suas andanças nalguma “selva de pedra”, ele tenha se sentido um “cachorro vadio” brincando de amor com uma “onça pintada”.

Afinal, neste mundo de tantos encantos e desencantos é dificílimo encontrar alguém que, na “selva de pedra”, ao menos uma vez, nunca tenha se sentido um “cachorro vadio” ou uma “onça pintada”.

E assim, com tantas histórias memoráveis, o nosso imortalizado Pai Noel, o saudoso Manoel Messias Neto, filho do senhor Luiz Souza (“Tuí) e da senhora Lelice Souza; irmão de Lúcia (já falecida), “Luizinho” e Aparecida (“Cida”),  passou pela vida deixando importante legado.

Para mim, que fui um de seus grandes amigos, na juventude, e para outros contemporâneos, conterrâneos da extinta tabas dos Urumarys; e para seus saudosistas familiares, enquanto existir um Carteiro a percorrer as ruas da cidade de Pão de Açúcar, para entregar correspondências; enquanto acontecer uma festa de Natal e um festejo de Carnaval, Manoel Messias Neto, popularmente conhecido como “Mané de Tuí”, “Manoel Carteiro”, “Manoel dos Correios”, será sempre lembrado.  Perpétua saudade.

Manoel fantasiado de Rei Momo (em estilo faraó). Fotos: Reprodução/Arquivo Will

Bloco O Solitário desfilando no Carnaval de Pão de Açúcar. Manoel em traje de bebê com fralda e chupeta.

Manoel fantasiado de Pirata, no Carnaval de Pão de Açúcar. Foto: Reprodução/Cortesia/Arquivo Will

Manoel Messias Neto em traje de Palhaço, animando uma festa infantil. Foto: Reprodução/Cortesia/Arquivo Will

Manoel em traje de personagem bíblico, participando de uma procissão em Pão de Açúcar. Foto: reprodução/Cortesia/Will

 

 

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