CULTURA

Homenagem Póstuma: Zé Veneno é poesia que inspira poemas!

Pão de Açúcar perde o carpinteiro e contador de histórias José Vieira de Carvalho, conhecido como ‘Zé Veneno’.


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  Fonte: Crônica de Helio Fialho

Zé Veneno é poesia que inspira poemas.

Zé Veneno é poesia que inspira poemas.   Foto: Foto: Reprodução/Acervo de Helio Fialho

Postado em: 04/11/2026 às 13:19:01

Quando fiquei sabendo da triste notícia da morte do nosso conterrâneo José Viera de Carvalho, conhecido popularmente como “Zé Veneno”, vieram muitas recordações deste cidadão honrado, franzino, que durante longos anos exerceu o ofício de carpinteiro, sendo considerado um dos melhores da região, provando que tamanho não é documento.

Nos meus tempos de menino, o conheci construindo o teto da casa onde nasci, na Avenida Bráulio Cavalcante, nº 196, localizada no trecho da “Rua do Meio”. Enquanto ele trabalhava com muita habilidade, ninguém ouvia sair de sua boca uma só palavra, devido à sua concentração no serviço que realizava com muito esmero. Contudo, em momentos de pequenas pausas, ele sempre contava suas histórias engraçadas e eu percebia que o meu pai ficava sorrindo. E eu, como cresci orientado a não intrometer-me em conversa de adulto, ficava somente observando e achando muito agradável suas conversas. Lembro até que ele fez uma escada muito grande, por encomenda do meu pai, para serviços de retelhamento da casa e outras necessidades. Essa escada permaneceu durante muitos anos no quintal da minha residência, até que o tempo a deteriorou.

Já na minha adolescência, voltei a ouvir as conversas bem-humoradas de “Zé Veneno”, na alfaiataria do saudoso João de Saló”, na antiga Travessa João Pessoa, hoje Calçadão João Antônio dos Santos, conhecida, também, como “Beco da Caixa Econômica”. Eu era frequentador assíduo da alfaiataria e, quase todas as tardes, chegava para ouvir as muitas prosas e teimas que ali surgiam. E, vez por outra, Zé Veneno aparecia para contar suas histórias engraçadas que arrancavam gargalhadas dos alfaiates, aprendizes e frequentadores.

Ele criava piadas com o próprio apelido e provocava gargalhadas quando dizia: “As pessoas podem comer Zé Banana, Luiz Galinha, Pedro Manga, João Goiaba, Mané Peixe, Maria Galo, Zefa Broinha, mas se comerem Zé Veneno, elas morrem porque ninguém come este veneno”.

Mas a vida deste tão bem-humorado cidadão, que trabalhou duro para sustentar seus 16 filhos, frutos de dois casamentos, dos quais ficou viúvo, teve momentos de tristeza e dor, que ele soube superar – porque na sua vida, ele aprendeu  "fazer do limão uma limonada”, ou seja, soube transformar situações difíceis, amargas, inesperadas em algo positivo, útil e proveitoso.  

Zé Veneno e Helio Fialho, 20/10/2009. Foto: Reprodução: Acervo de Helio Fialho

No dia 20 de outubro de 2009, em uma das praças da Avenida Bráulio Cavalcante, precisamente em frente à casa onde morei, próxima à agência do banco do Brasil, cheguei a posar para fotografia ao lado do amigo Zé Veneno, para ficar para a posteridade. Eu estava na casa dos 51 anos quando o ilustre humorista completou 88. No entanto, com suas roupas modernas e seu eterno espírito boêmio, ele passava longe de aparentar a proximidade dos 90. Naquela oportunidade, foram tiradas mais duas fotografias deste velho humorista retirense e pão de açucarense, que exibo com esta minha crônica homenageativa, ao tempo em que expresso Votos de Pesar aos familiares enlutados.

Segundo a filha “Sandra Veneno”, com a qual o pai morava há muitos anos, na Fazenda Itororó, José Vieira de Carvalho encerrou seu centenário ciclo de vida de maneira tranquila e em paz. Ele acordou com a respiração muito fraquinha e foi conduzido à Unidade Mista Dr. Djalma Gonçalves dos Anjos (Pão de Açúcar), onde veio a falecer por volta das oito horas e cinquenta minutos do dia 31 de outubro de 2026, data em que se comemora o Dia Nacional da Poesia.

O sepultamento ocorreu em pleno “Dia de Todos os Santos” (1º de novembro), no Cemitério São Francisco de Assis, cujo cortejo contou com a presença de familiares e amigos.

E assim Zé Veneno viveu em Pão de Açúcar 105 anos, 2 meses e 12 dias, gozando de lucidez, provando que uma das receitas mais eficazes para a longevidade é encarar a vida com bom-humor e boas gargalhadas.

Partiu o homem, mas ficou a sua essência na memória de nossa gente. Afinal, Zé Veneno é poesia que inspira poemas.

José Vieira de Carvalho, conhecido como Zé Veneno, em 2009, na Avenida Bráulio Cavalcante. 

Foto: Reprodução/Acervo de Helio Fialho

 

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