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Homenagem póstuma ao piloto de canoa de tolda Pedro de Aristides

O ‘mestre-piloto’ do Velho Chico morreu no início deste mês de fevereiro em Aracaju (SE), aos 97 anos, e foi sepultado em pleno momento de cheia do rio São Francisco, em Pão de Açúcar, sua terra natal.


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  Fonte: Artigo - Por Helio Fialho

Pedro Gonçalves Lima, 'Pedro de Aristides'

Pedro Gonçalves Lima, 'Pedro de Aristides'   Foto: Reprodução/Túlio dos Anjos/Cortesia

Postado em: 19/02/2022 às 12:42:06

ARTIGO

 

Ainda que passado alguns dias, fiquei sabendo a notícia da morte do ancião Pedro Gonçalves Lima, 97 anos, conhecido popularmente como “Pedro de Aristides”, em Aracaju, cidade onde, já idoso, ele foi morar com uma de suas filhas. Segundo informações de um parente do falecido, o óbito ocorreu no dia 25 de janeiro deste ano, na capital sergipana, e o sepultamento aconteceu no dia 26, no Cemitério São Francisco de Assis, na cidade de Pão de Açúcar, terra natal deste grande timoneiro.

Os mais antigos moradores ribeirinhos, em especial, os filhos de Pão de Açúcar e de Propriá, sabem que “Pedro de Aristides” foi um dos grandes pilotos de canoa de tolda do Baixo São Francisco e sabia contar muitas histórias do Velho Chico, vividas por ele e, também, por outros amigos e colegas de profissão – Jonas Martins (Jonas da Buenos Aires), José Martins (Zé da Goiana, que foi piloto da Cruzeiro), Ataguinã da Vai Andando, Raul Nicácio (Raul da Mercedes), João da Barcelona e tantos outros que já não fazem mais parte deste mundo dos terráqueos.

 “Seu Pedro” foi experiente piloto da famosa canoa de tolda EYRARA, de propriedade do comerciante Antônio Poderoso (“Totonho Poderoso”), de Propriá (SE).  Durante muitos anos a EYRARA (sob a pilotagem de Pedro de Aristides) cruzou o rio São Francisco, carregada de mercadorias que abasteciam as cidades ribeirinhas. Nessa época, a gerente desta canoa era a senhora “Prazerinha Poderoso”, esposa do proprietário.

Segundo informações do escritor pão-de-açucarense *Túlio dos Anjos, exímio conhecedor do rio São Francisco e de suas embarcações, a Eyrara tinha capacidade para transportar entre 25 a 30 toneladas de carga. O trajeto semanal que esta canoa perfazia era Propriá a Pão de Açúcar e vice-versa. Trazia mercadorias variadas para abastecer o comércio de Pão de Açúcar e retornava carregada de arroz para o porto de Propriá, sendo este cereal comercializado na cidade sergipana pelo comerciante e proprietário desta possante canoa.

Nesse tempo, as várias lagoas de Pão de Açúcar eram beneficiadas pelas cheias naturais do rio e, por isso, as plantações (e produção) de arroz eram abundantes e muito contribuíam para a economia do município. Que pena, a cultura do arroz ter sido extinta no Baixo São Francisco, devido à construção de barragens!

Apenas a título de informação, a palavra Eyrara ou “Eirara” vem do tupi-guarani (ira ou eira,  mel, e ra, tomar, colher) e significa “papa-mel”. Da palavra Eirara deriva o vocábulo Irara. As iraras são animais longos e esguios com uma aparência semelhante à das doninhas e martas. Já o nome Aristides é predominantemente masculino, tem origem grega e pode ser traduzido como “melhor tipo” e “melhor espécie”.

Para que se possa ter uma ideia da enorme responsabilidade do timoneiro Pedro de Aristides, ele pilotava continuamente uma canoa de tolda com capacidade para transportar uma carga de até 30 mil quilos, sendo este peso, o dobro que muitas outras canoas de tolda podiam  carregar, já que, segundo, ainda, o escritor Túlio dos Anjos, a canoa de propriedade de seu pai Raul Nicácio (Mercedes), podia transportar até 18 toneladas, enquanto a canoa de Ataguinã (Vai Andando) podia carregar um peso de até 12 toneladas.

Sem dúvida, este detalhe expressa a extraordinária habilidade deste exímio piloto e conhecedor dos mistérios das águas do Velho Chico. Destarte, não foi em vão que o cidadão Pedro Gonçalves Lima, apesar de ter estudado quase nada, foi um extraordinário mestre da navegação e do bordejo, isto é, ele foi um Aristides (melhor espécie) na expressão da palavra.

O assunto em epígrafe faz-me rebuscar nomes de canoas de tolda que muito contribuíram para o florescimento do comércio ribeirinho no Baixo São Francisco, até os idos de 1970 – e mais pareciam borboletas multicoloridas pousando nas águas do Opará: Jumenta (transportava cereais – pertencia aos irmãos Gomes de Carvalho Mello (João Mouco, Perdiliano e Lucilo. João Mouco (este apelido deve-se ao fato de este comerciante de cereais ter sido portador de deficiência auditiva. Ele foi o esposo da senhora Maria Amélia Fialho de Mello); Aracati, depois Igarité (pertencia ao senhor “Pedro da Ceci”. Ceci era o nome de outra canoa); Mantiqueira (pertencia ao senhor Milício Feitosa e vivia no porto da Ilha do Ferro); Barcelona (pertencia ao senhor Enéias Lima); Cruzeiro (pertencia ao industrial Ronaldo Vieira dos Anjos – era exclusiva para o transporte de algodão); Buenos-Aires (pertencia ao industrial e político Elísio da Silva Maia (era exclusiva para o transporte de algodão); “Cachorra de Cócoras” (este era o apelido da canoa Confiança, que tinha o senhor “Milton Fonhem” como proprietário e piloto. O apelido do proprietário deve-se ao fato de o mesmo ter sido fanho); Mercedes (tinha como proprietário e piloto o senhor Raul Nicácio Vieira, pai do poeta Túlio dos Anjos. Com o passar dos anos, esta canoa foi transformada em lancha do tipo tototó); Vai Andando (o proprietário e piloto era o senhor Ataguinã. Também foi transformada em lancha do tipo tototó);  Luzitânia (pertencia ao senhor “Fernando de Pidoca”, que era, também, piloto. Esta canoa vivia no porto do povoado Curralinho, município sergipano de Poço Redondo. Hoje esta canoa pertence à Sociedade Socioambiental Canoa de Tolda).

Segundo informações extraídas do portal da Sociedade Socioambiental Canoa de Tolda, “os primeiros registros do tipo de embarcação, ainda em seus primórdios, são do final do século XIX pelo excepcional registro fotográfico de Abílio Coutinho em viagem ao longo do Baixo São Francisco. Os exemplares da época tinham uma tolda rústica coberta com folhas de palmeiras e a propulsão se dava a remos, varas e, em situações de subida do rio, com os ventos gerais de leste, com uma armação de velas rudimentares, os chamados panos asa de brabuleta, abrindo para ambos os bordos: permitiam unicamente a navegação com vento em popa”.

E foi contemplando os encantos do Velho Chico, com suas lendas e mistérios, com suas cheias naturais e seus imensos cardumes, que Pedro de Aristides viveu e sobreviveu, pilotando, anoitecendo e amanhecendo. Ora enfrentando o sol causticante, ora enfrentando chuvas e tempestades, ora enfrentando ventos favoráveis, ora saboreando uma deliciosa “feijoada de canoa” – bordejando e cruzando o rio da integração – o rio da paixão de mestres-pilotos que rapidamente passaram, assim como passam as águas correntes deste manancial que percorre  Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Banha, Pernambuco, Alagoas e Sergipe.

O comentário do neto Cleilton sobre o avô Pedro de Aristides merece destaque pelo orgulho que ele, ainda menino, sentia quando via o avô pilotando a canoa de Paladina, que tinha uma tolda diferenciada pelo seu formato quadrado. Esta canoa foi uma das últimas atingidas pela extinção desta espécie de embarcação no Baixo São Francisco. "Esse era meu avô, amava o que fazia: pilotar canoas, estar à beira do Velho Chico com seus amigos. Eu, ainda garoto, tive o prazer de vê-lo fazer o que mais gostava – e a última canoa de tolda que o vi pilotar foi a Paladina, diferenciava pela tolda quadrada. era uma alegria ir ao cais  e ver no horizonte ele chegando. Saudades".

E assim, um dos últimos pilotos de canoa de tolda vivos do Baixo São Francisco, deu seu último adeus, em pleno período de cheia do rio São Francisco, ainda que a enchente tenha sido artificial, mas foi provocada pelas fortes chuvas. Parece até que o Velho Chico rendeu homenagem ao amigo e timoneiro, que agora, está navegando nas águas do Espírito, na Mansão de Luz.

Descanse em paz, mestre-piloto Pedro de Aristides. Saudade perpétua.

Canoa de Tolda - Foto: Reprodução/Portal Sociedade Socioambintal Canoa de Tolda

Pedro de Aristides com os amigos Raul Nicácio e Afonso Nicácio, também, excelentes pilotos de canoas.

Foto: Reprodução/Túlio dos Anjos/Cortesia. 

Porto de Penedo - Foto: portal da Sociedade Socioambiental Canoal de Tolda

Porto de Penedo - Foto: portal da Sociedade Socioambiental Canoal de Tolda

Canoa de tolda Piranhas  Foto: Reprodução/Redes sociais/Google.

Canoa de tolda cruzando o rio São Francisco - Foto: Reprodução/Redes sociais/Google

Canoa de tolda Luzitânia (recuperada pela Sociedade Socioambiental Canoa de Tolda. Foto: Reprodução/portal Sociedade Socioambiental Canoa de Tolda

 

(Matéria atualizada às 06h25min do dia 20 de fevereiro de 2022)

*Colaborou com informações. O poeta Túlio dos Anjos é filho do saudoso e extraordinário piloto e proprietário da canoa de tolda Mercedes, Raul Nicácio Vieira. Túlio dos Anjos é considerado um genial poeta e historiador do rio São Francisco, conquistando prêmios com o poema “Lágrimas do Velho Chico”.

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  • Cleilton Dean 19 de Fevereiro de 2022 Esse era meu avô, amava o que fazia pilotar canoas, estar a beira do velho Chico com seus amigos. Eu ainda garoto tive o prazer de vê-lo fazer o que mais gostava, e a última canoa de tolda que vi pilotar foi a paladina, diferenciava pela tolda quadrada, era uma alegria e ao cais e ver no horizonte ele chegando. Saudades.