FIE prevê quebradeira de empresários após o fim da pandemia do novo coronavírus
Paralisação de empresas imposta por Renan Filho completa um mês nesta terça-feira

Fonte: Com Gazetaweb - Por Herbert Borges
FIE prevê quebradeira de empresários após o fim da pandemia Foto: Reprodução/Gazetaweb
Ao completar um mês nesta terça-feira (21) do primeiro decreto estadual que obrigou o fechamento de empresas que não vendam produtos ou serviços considerados essenciais, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Alagoas (FIEA), José Carlos Lyra de Andrade, afirmou à Gazeta que "não sabemos quantas empresas vão estar de pé e quantas vão quebrar" após o fim da pandemia de Covid-19.
Segundo Lyra, é muito complicado dar uma resposta hoje. "Não temos como adivinhar o futuro. Vai depender de quando a quarentena termina, e o que o governo fará até lá, para manter as empresas em pé. Tudo isso é complicado", pontua.
Os efeitos do isolamento já são sentidos pelos empresário alagoanos, e mais do que bater à porta, eles provocaram o fechamento das portas. Desde que inaugurou sua primeira loja de artigos esportivos em abril de 1994, o empresário Marcelo Miranda nunca tinha fechado por tanto tempo. Um mês após o isolamento, ele contabiliza 22 funcionários com os contratos suspensos, e vê as três lojas que possui fechadas.
Sem saber o que fazer, ele se apega à religiosidade. "Num momento como esse tenho que acreditar primeiramente em Deus que nunca nos deixa sem resposta e sempre apresenta solução para tudo que acontece. Tenho muita fé que sairei mais forte, com novas idéias", conta.
De acordo com ele, o pior é "a incerteza de enfrentar um inimigo desconhecido e traiçoeiro, que surpreende a todos e detona toda previsão e qualquer planejamento". Ele diz acreditar que esta crise será um divisor de águas para muitos. "Acredito que 90% das micro e pequenas empresas vêm atravessando uma fase de muitas dificuldades para sobreviver e pelo menos se manter no mercado".
Sobre os funcionários, o empresário avalia que a suspensão dos contratos de trabalho que foi feita com todos foi a melhor alternativa para manter os empregos e garantir um período de estabilidade. "Converso informalmente com alguns funcionários para saber como estão", afirma. Além disso, ele conta que já começou a negociação com fornecedores e credores quanto a prorrogação de prazos de pagamentos..
Questionado sobre a retomada da economia, Miranda estima que para o varejo, será uma retomada muito lenta. "Feito uma engrenagem de bicicleta que parou subitamente em uma subida de ladeira", compara. Ele conta que a flexibilização do isolamento social que ele chama de "flexibilização responsável" é necessária. "Com regras, compromissos e cuidados específicos para cada ramo das diversas atividades comerciais e de serviços a começar pelos transportes públicos, a higienização, o uso de máscaras e o distanciamento, comprovadamente evitam o contágio", sugere.
O empresário Luiz Jardim, dono de uma rede de sete lojas de tintas e materiais de construção, e que emprega 100 pessoas, diz que "o desafio é fazer com que a empresa consiga navegar nessa tempestade sem naufragar, tentando manter sua tripulação a salvo, racionando os víveres, procurando novas rotas, mas motivada para que possamos enfrentar estes dias tão difíceis empresarialmente e perante nossas famílias".
Segundo ele, o mais difícil no primeiro momento é planejar o fluxo de caixa da empresa para com os saldos cumprir os compromissos com os funcionários diretos e terceirizados, prestadores de serviço e na manutenção e segurança das instalações além da sua própria subsistência e da sua família. "Não podemos imprimir dinheiro", ironiza.
No entanto, das sete lojas, apenas quatro estão funcionando, e com vendas por telefones e meios digitais e entrega em domicílio ou o cliente pegando na porta da loja. Férias foram dadas a um grupo de funcionários, os dos grupos de risco como os maiores de 60 anos, grávidas e com quadro de saúde comprometidos foram afastados. Ele afirma que cortou 30% das despesas da sociedade.
"O grande problema é que não sabemos até quando este cenário vai se prolongar pois necessitaremos de novas receitas para arcar com os compromissos anteriormente assumidos e muitos postergados", desabafa. O empresário conta que com um terço do quadro de funcionários operando em tempo integral estima segurar cerca de 40% da receita anteriormente estimada para este mês, o que, segundo ele, é muito pouco para cobrir os compromissos.
Luiz Jardim pondera ainda que é imperioso cumprir com obrigações tributárias e fiscais para não travar a empresa pelas sanções legais pois, segundo ele, muitos impostos como o Impostos sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) não foram flexibilizados.
"Precisamos manter certidões que viabilizem negociações de crédito com instituições diversas. Depois precisamos planejar e negociar com fornecedores e parceiros a continuidade das operações, tentando estimar receitas possíveis dentro de um novo cenário, sendo que para uma grande maioria o "lockdown" [fechamento] da política da "quarentena" impossibilitou o funcionamento determinando "receita zero".
Para outros, existe condições de operação com restrições, mas em todos os casos os custos continuam altos e a entrada de recursos despencou", expõe. "Então, mesmo com alguns financiamentos do governo federal, e adiamento de compromissos, queimada alguma "gordura" inicial se existente, como continuar pagando suas obrigações com pessoal, impostos e fornecedores?", questiona.
Sobre o isolamento social ele pondera que esta é uma equação complicada para se resolver. "O Governo não produz recursos, não gera renda. Quem cria riqueza são pessoas e empresas que trabalham, produzem e repassam boa parte dessa riqueza para o governo via impostos, que são transformados em serviços públicos e em redistribuição de renda. Se não houver produção até quando vai a capacidade de engessamento da economia? O endividamento público já está nas alturas e teremos um quadro caótico nos próximos anos, a miséria já está na nossa porta e a violência vai crescer. Por outro lado como manter a segurança da população para que não se alastre essa pandemia acima da capacidade de atendimento de nossa rede de serviço de saúde e que consigamos num prazo curto debelar esse vírus? Temos também um forte discurso do "fique em casa' em algumas classes enquanto outras enfrentam filas nas calçadas de um banco público para retirar um subsídio governamental ou necessita ir a luta numa feira livre para ganhar seu sustento", analisa.
De acordo com Jardim, enquanto o pequeno e médio comércio está fechado as grandes redes, autorizadas, vendem de tudo "e em muitos momentos se nivelam aos festivos shoppings enquanto os lojistas do Centro e de bairros estão fechados quebrando seus negócios". Segundo ele, isso só faz a concentração de renda aumentar.
O empresário diz acreditar num planejamento de retorno ao atendimento com segurança, com consciência da população e fiscalização para que paulatinamente as empresas possam ir retomando algumas atividades. "Quando? quais? Bem, existe um trabalho técnico da Associação Comercial de Maceió que foi repassado ao governo do Estado e que leva em conta a situação da economia e o panorama da pandemia em Alagoas. Não podemos ficar simplesmente prorrogando a situação de "lockdown" pois o estômago precisa ser abastecido", alerta.
O vendedor em uma loja de roupas e tecidos no Centro de Maceió, Gilson Goulart, sabe bem que o estômago precisa ser abastecido. Na família de três que ele forma com a esposa e a filha de quatro anos, só ele trabalha e quando questionado sobre como está situação atual ele é direto ao afimar: "assando e comendo".
Goulart narra que a situação financeira ficou "péssima" porque devido o fechamento do comércio ele perdeu a comissão que recebia e tanto ajuda a complementar a renda, e agora precisa viver com um salário mínimo. Sem enxergar outra opção, os três estão em quarentena nesse contexto de limitação financeira e aumento no consumo de alimentos e energia em casa. "As contas já estão atrasadas, vou manter o essencial para sobreviver", revela. O trabalho em casa adotado por vários segmentos da economia não funciona para Goulart, que, desesperado, apela: "o governo precisa liberar o comércio! precisamos voltar a rotina!"


Comentários
Escreva seu comentário