‘Enfrentei o racismo dentro de casa’, conta juiz e professor John Silas
A Cláusula pétrea para Silas se resume em alicerce familiar, estudos e na luta de fazer justiça por atos, e não pela cor da pele de quem ocupa o banco dos réus.

Fonte: TNH1- Por Dayane Laet
‘Enfrentei o racismo dentro de casa’, conta juiz e professor John Silas Foto: Reprodução/TNH1
Era pouco mais de 14h quando encontrei John Silas da Silva em uma sala de reuniões anexa a um dos salões de júri no conhecido fórum do Barro Duro, em Maceió, para a entrevista. Pronto para iniciar mais uma tarde de audiências, o senhor de 68 anos e poucas rugas, só aparenta maturidade pela cabeça coberta de cabelos brancos. O terno escuro e o tom grave da voz compõem aquele perfil de juiz de filme americano, sisudo.
A aparente austeridade se dissolveu em um leve sorriso quando perguntei ao magistrado sobre sua infância simples no bairro Campo Grande, município de Cariacica, região metropolitana de Vitória (ES), onde foi o primogênito de cinco irmãos. “Vivíamos envolvidos em uma rotina humilde, típica da região rural da década de 1950”, relembrou, saudoso.
O avô materno de Silas, caboclo, casou-se pela segunda vez com uma descendente de italianos, branca, e os dois geraram filhos com traços de ambos os povos. “Sofríamos racismo dentro de casa, por parte dos meus tios brancos. Algo que tivemos de aprender a lidar com o tempo, não só em casa, mas no transporte, em sala de aula e em quase todos os ambientes públicos. Até mesmo dentro da igreja”, recordou.
Com os pais do juiz, a história se repetiu: o pai preto casou-se com uma mulher branca. A sutil, mas importante diferença surgiu quando dona Jocilia Martins percebeu que os filhos sofriam racismo. Ela os chamou para uma séria conversa. “Mesmo com pouco estudo, minha mãe sempre foi sábia. Ela explicou que encontraríamos pessoas racistas no decorrer da vida, mas que enfrentaríamos e daríamos a volta por cima. Sempre. ”, relatou o magistrado. “Ela também usou a Bíblia para nos explicar que todos pertencemos a uma única espécie e que descendemos de um único Pai, o que nos tornava iguais. Aquela conversa bastou para nós”, assegurou. Toda a família Silva congrega na Igreja Adventista do Sétimo Dia até hoje.
Aos 13 anos o então adolescente John Silas se muda para a casa de uma tia, no Rio de Janeiro, onde sonha estudar em um colégio público, o Pedro II, muito famoso na época pelo ensino de qualidade. Não conseguiu a vaga e mesmo frustrado não desistiu dos estudos. Um ano depois consegue seu primeiro emprego de office boy em uma corretora de valores, onde passa a descobrir o mundo jurídico. “De limpeza dos escritórios ao translado de documentos, fazíamos de tudo um pouco”, falou. “Foi tendo contato com a papelada cotidiana que me familiarizei com processos e descobri minha vocação”, assegura. Tempos mais tarde ele conseguiu levar a família de Cariacica para o Rio, e assim todos voltaram a morar juntos novamente.

Silas descobriu sua vocação aos 14 anos, quando conquistou seu 1º emprego / Arquivo Pessoal
Trabalhando os dois horários e estudando a noite, Silas conquista o diploma de administração hospitalar em 1979 e é convidado pela Santa Casa de Maceió para administrá-la. E aceitou.
Ao estabelecer a família – hoje formada por esposa, três filhas e dois netos – resolveu, dois anos depois de assumir a administração da Santa Casa, retomar os estudos e realizar um sonho antigo: tornar-se advogado.
Após concluir o curso de Direito, em 1985, John Silas estudou por dez anos até que conquistou a tão sonhada vaga de juiz criminal, onde atua até hoje. Ele também tornou-se professor de Processo Civil e Ética na Universidade Federal de Alagoas. Sobre o tema da disciplina, o magistrado reflete que “enquanto sociedade, atravessamos uma grave crise no âmbito moral, maior ainda que a financeira”.
Então comentei com ele sobre o caso do rapaz que foi pego furtando uma barra de chocolate e punido com requintes de tortura. Silas foi taxativo. “Roubo sempre será roubo. Não importa se foi um chocolate ou uma barra de ouro. O comportamento é o mesmo e quem o pratica precisa responder criminalmente, mas através dos meios legais”, afirma.
“Sempre ouvimos dizer que só é preso quem é preto e pobre. Na prática realmente o número de acusados negros é maior que o de brancos e isso é reflexo social. Estou aqui para garantir que não é a cor do réu que será julgada, mas seus atos. Além disso, tentamos apontar para ele o caminho correto”, explicou. “Se percebemos através dos autos que houve algum tipo de excesso de força ou falta de atenção por parte das forças policiais, acionamos os meios legais para que se investigue também a conduta dos agentes envolvidos”, garante.

Filho de agricultores, John Silas tornou-se juiz aos 44 anos
Faltando poucos minutos para iniciar sua jornada no fórum, o agora juiz criminal John Silas reitera que a melhor forma de combate ao racismo que ele encontrou foi através dos estudos. “Minha mãe fez a diferença, pois sua postura firme sempre nos relembrava que não importava o que os outros dissessem, éramos todos iguais porque Deus nos garantia isso”.
A esta altura da conversa, o perfil sério de Silas se transformou em uma postura leve, quase paternal. Me dei conta de que ao se referir a si mesmo, sempre na primeira pessoa do plural, ele ampliava sua história de vida para tantos outros, anônimos, que viveram as mesmas situações.
A Cláusula pétrea para Silas se resume em alicerce familiar, estudos e na luta de fazer justiça por atos, e não pela cor da pele de quem ocupa o banco dos réus.


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