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Drag queens enfrentam o preconceito e ganham cada vez mais espaço em Alagoas

G1 conversou com as drags Paty Maionese, Maju Shanii e Jhulli Kervara sobre como é ser drag no 2º estado que mais mata LGBT no país, e como o público vem aceitando essa arte.


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  Fonte: G1 AL - Por Derek Gustavo

  Foto: Reprodução/G1/Flavio Cançanção e Ana Dantas

Postado em: 29/07/2018 às 14:14:51

As drag queens estão em alta. E não é só pelo tamanho do salto que calçam, mas pelo espaço que elas vêm ganhando na sociedade, seja entre o público LGBTI+ ou o público hétero.

Em Alagoas a tendência é a mesma e elas vêm se destacando em diversas áreas. Só que o caminho não é fácil, e ainda é preciso enfrentar muito preconceito, até mesmo dentro do meio gay.

Um dos pioneiros dessa expressão artística no estado é o produtor cultural Robson Barros Correia, 38, mais conhecido por sua personagem: Paty Maionese. Ele conta que começou a se montar há 16 anos.

“Eu trabalhava em uma empresa de eventos e viajava muito. Em uma dessas viagens, vi várias drag queens animando uma festa e fiquei encantado com o que vi, com muitos brilhos, salto alto e perfume incrível. Logo pensei: ‘em Maceió não tem isso’. Voltei da viagem pensando na possibilidade de me tornar drag também. Me montei para animar um chá de bebê de uma amiga, e nunca mais parei”, relata Correia.

 Paty Maionese e elenco da sua peça, "Encontro com Humor"; ela levou o drag para a área do entretenimento em Alagoas (Foto: Divulgação)

Paty Maionese e elenco da sua peça, "Encontro com Humor"; ela levou o drag para a área do entretenimento em Alagoas (Foto: Divulgação)

Anos depois, outras drags foram surgindo e uma outra começou a se destacar, também nesse meio artístico, Maju Shanii. Criada pelo ator e farmacêutico Erick Hanon, 23, ela chamou a atenção do público ao se lançar como cantora de músicas autorais. Algo até então inédito no estado.

“A Maju nasceu no final de 2015, quando eu estava prestes a concluir o curso de formação de ator que fazia na época, inspirado no que vi no "RuPaul’s Drag Race" (competição entre drags exibida na TV nos Estados Unidos) e no meu contato com a militância LGBT e, principalmente, negra [o que também inspirou seu nome, que é referência à jornalista Maria Júlia Coutinho, da TV Globo]. A junção do drag com a música veio a partir desse boom de artistas drags no mercado fonográfico nacional”, conta Hanon.

Fora do entretenimento e da música, as drags também encontram seu espaço. É o que conta o professor de dança e estudante de jornalismo Marcelito Rocha do Nascimento Júnior, 24, que levou sua criação, a Jhulli Kervara, para dentro do seu trabalho.

Ele começou a se montar em maio de 2015, porque "queria sentir a incrível sensação que meus amigos tanto descreviam quando estavam montados". E ainda lembra como foi quando chegou para dar a primeira aula como drag queen.

 

"Na primeira vez que pisei na academia montado, tremia muito e suava horrores. Quando entrei na sala, vi meus alunos boquiabertos, pasmos e paralisados. O aulão e a academia pararam! Hoje eles já estão acostumados, e sempre esperam um lacre seguido do outro. Esse é nosso lema”, brinca Júnior.

 

 

‘Força na peruca’

 

Essa naturalidade para poder contar suas histórias veio a muito custo, e com a queda de muitas barreiras. Jhulli conta que a família ainda não aceita tranquilamente o fato de ele se montar.

“Minha mãe tem o pé atrás, mas apoia. Do meu pai eu nunca tive apoio. Ele meio que abomina e solta logo o discurso clichê: ‘não tenho preconceito, mas não quero ver’. Gostaria muito que eles vissem o quanto as pessoas me veneram e demonstram carinho”, afirma.

Para Maju, o processo em casa foi mais tranquilo. Ela, no entanto, considera sua situação como exceção, e não a regra.

“Minha mãe só soube que eu era drag dois anos depois do meu início. Ela sempre foi acostumada a me ver interpretando papéis no teatro, usando figurinos e maquiagens extravagantes, então talvez não fosse um choque para ela, mas tive muito medo. Ser LGBT nos traz esses estigmas de que nunca seremos aceitos, algo que a sociedade infelizmente nos impõe”, diz a drag.

O problema, afirma Paty, vai ainda mais longe, uma vez que o preconceito ocorre também dentro do meio LGBT que, em teoria, seria o primeiro a aceitá-las.

 

“Sofro preconceito da própria classe. O gay vai para as paradas para exigir respeito, mas não consegue respeitar o ator que interpreta um personagem feminino. Sou gay e gosto de me relacionar com gay. Não tem essa de ‘o bofe’ ou a ‘bicha’. Estou solteiro há exatamente 8 anos, porque quando falo que sou drag, o ‘paquera’ perde o interesse”, lamenta Paty.

 

 Jhulli Kervara trabalha dando aulas de dança em academias (Foto: Reprodução)

Jhulli Kervara trabalha dando aulas de dança em academias (Foto: Reprodução)

A violência também é motivo de preocupação para elas. Um levantamento divulgado pelo Grupo Gay da Bahia em abril deste ano colocou Alagoas como o segundo estado do país com mais mortes de LGBT.

Neste mês, o governo estadual criou um grupo com foco em políticas públicas nessa parcela da população, para tentar combater a violência contra eles e a impunidade de agressores.

“É uma situação deplorável. Apenas pelo fato de subirmos no ônibus maquiados, sem nenhuma produção, já arranca sussurros, risos, xingamentos e apelidos das pessoas ao redor. Isso acontece com toda a classe LGBT. Também falta mais união entre as próprias drags. Há muita rivalidade e ridicularização no nosso meio”, afirma Jhulli.

Sobre essa situação, Maju analisa que “acaba sendo paradoxal o fato de estarmos tendo essa visibilidade toda e morarmos em um dos estados que mais mata, não é? Ainda há muito o que se conquistar e, no quesito drag, nem se fala! Precisamos ser vistas e valorizadas como profissionais que somos, o que às vezes não acontece. Então, além da lgbtfobia, ainda há a desvalorização do nosso trabalho. Mas aos poucos estamos conseguindo, um passo de cada vez”.

Paty concorda e diz que a violência não deve ser um empecilho para que elas possam se expressar.

 

“A violência é universal, porém, assustadora. Mas você não pode se enclausurar porque há perigo na esquina. Com uma dosagem de prevenção, a gente aprende a se livrar, e vai vivendo sem medo de ser feliz”, afirma Paty Maionese.

Nessa luta por aceitação e contra o preconceito, elas contam que o reality “RuPaul’s Drag Race”, apresentado pela drag RuPaul Charles na TV norte americana, acabou abrindo portas para essas artistas em vários meios e países diferentes.

No programa, RuPaul diz "shantay, you stay" para as participantes que não são eliminadas e continuam na competição. E, fazendo um comparativo, é isso que as drags vêm "ouvindo" do público cada vez mais, que elas têm espaço e podem ficar.

“Isso se deve tanto ao Drag Race, como também à inserção de artistas em mercados importantes, como a Pablo Vittar. Ela é gay, drag, e através da música, está conseguindo parcerias com artistas internacionais. Isso acarreta em visibilidade para o movimento, mas principalmente, respeito. As pessoas agora nos enxergam como artistas que produzem um conteúdo relevante. Isso nós já fazíamos, mas por ser uma arte marginalizada, não havia essa visibilidade toda”, diz Maju.

 RuPaul como drag queen e "desmontado": ícone drag da cultura pop (Foto: Divulgação/Site Oficial)

RuPaul como drag queen e "desmontado": ícone drag da cultura pop (Foto: Divulgação/Site Oficial)

Jhulli diz ainda que o trabalho duro de cada uma também tem sido um diferencial nesse processo de aceitação do público e da sociedade. “Todo o esforço que sempre temos mostrados, muita batalha contra a homofobia e vários preconceitos, muita batalha por nossos direitos, expondo nossos ideais e ‘botando pra jogo’ o quanto somos abençoados com dons maravilhosos”.

E pensando no apoio para as drags que já estão na área há mais tempo e para aquelas que estão começando, Paty conta que está planejando criar uma associação. O objetivo é passar o conhecimento que ela adquiriu em tantos anos de carreira.

 

“Vamos lutar pela valorização, cachês dignos, unir todas com o propósito de levar essa arte aos quatro cantos do mundo. Queremos mostrar que Alagoas tem drag queens com um potencial incrível, como a Lavinia Burtner, que faz uma make incrível; a Hagatha Laser, que encanta fazendo cover da Claudinha Leitte e como estilista; e a Maju, bafônica, que canta, dança, etc”, conclui.

 

 
 Drags contam ao G1 que o público está cada vez mais receptivo ao trabalho delas em Alagoas (Foto: Derek Gustavo/G1)

Drags contam ao G1 que o público está cada vez mais receptivo ao trabalho delas em Alagoas (Foto: Derek Gustavo/G1)

 

 

 

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