BLOGS

Com a construção de usinas hidrelétricas, a CHESF devastou a economia e a cultura dos municípios ribeirinhos do Baixo São Francisco

A dívida da CHESF para com as populações ribeirinhas é exorbitante. A Companhia deveria ratear com os municípios afetados parte dos recursos oriundos da venda de energia elétrica.


Plantadores de arroz na lagoa do Povoado Santiago, em Pão de Açúcar (AL) - 1982.o

Plantadores de arroz na lagoa do Povoado Santiago, em Pão de Açúcar (AL) - 1982.o   Foto: Reprodução/Arquivo Helio Fialho

Postado em: 02/12/2019 às 20:16:42   /   por Helio Fialho

ARTIGO

 

Neste nosso artigo, destacamos o rio São Francisco, porém, para que os leitores compreendam melhor o sentido da mensagem, inicio falando sobre um cidadão que ficou guardado em minhas lembranças dos meus tempos de criança: “Tonho Doido”.

Este era o apelido dado pela sociedade da época a um morador do Alto Humaitá, em razão de um transtorno mental.  Depois que me tornei adulto, preferi o considerar Profeta do Velho Chico, por motivo de sua identidade com  rio São Francisco.

Todos os dias, que fizesse sol ou chuva, Antônio de tal, conhecido como “Tonho Doido”, adentrava no leito do rio e, com as águas encobrindo sua cintura, passava  manhã e tarde inteiras  medindo  o volume das águas do rio São Francisco. Ele começava por volta de 6 horas da manhã e terminava ao meio-dia, retornando para a sua humilde residência, onde morava com a mãe e um irmão. À tarde, por volta das 14 horas, retomava à sua atividade de medição fluvial.

De posse de uma lata que estampava as inscrições e o desenho de duas mãos unidas, do programa cooperativo internacional *Aliança para o Progresso, ele, dizendo que estava medindo o rio, ficava enchendo e esvaziando o recipiente, de maneira ininterrupta. E sempre que encerrava sua difícil tarefa, ao fim de cada manhã e de cada tarde, ele dava uma breve entrada na bodega do senhor Pereira Bonfim, pegava um lápis grafite que sempre ficava em cima de um  maço de papel de embrulho sobre o balcão, e fazia suas anotações em uma das folhas. Era tanta a força que ele empregava para escrever, que chegava a perfurar o papel.

Apesar de não saber ler e escrever, “Tonho” fazia rabiscos na folha de papel de embrulho, ao tempo em que dizia em alta voz: “Hoje o rio está com mil polos!”. E, assim, em sua rotina de medição fluvial, a depender do que percebia, ele fazia suas anotações, aumentando ou diminuindo a quantidade das águas. “Hoje o rio está com dois mil polos!” – “Hoje  o rio está com quinhentos polos!”...

Polo” não é uma unidade de medida e, por este motivo, a expressão usada por este lunático,  era motivo para gozação dos frequentadores da bodega do senhor Pereira Bonfim.

Este mesmo cidadão, por volta das 23 horas do dia 30 de agosto de 1963, data marcada pela inauguração da energia elétrica da CHESF, transmitida de Paulo Afonso para Pão de Açúcar, dominado por grande ira, de posse de uma vara, quebrou quase todas as lâmpadas da iluminação pública recém-inaugurada, que haviam sido colocadas nos postes ao longo da Avenida Bráulio Cavalcante.  Isso foi o bastante para “Tonho Doido” ser preso e levado para uma das celas da Cadeia Pública, onde permaneceu  encarcerado durante 24 horas.

Apesar de, naquela época, eu ser uma criança de apenas 5 anos e 3 meses de idade,  carrego comigo, até hoje, as lembranças deste ocorrido que chamou muito a atenção da população pão-de-açucarense.

E depois de adulto, ao fazer uma profunda análise sobre o comportamento de “Tonho Doido”, descobri que este cidadão, tão discriminado naquela época pela sociedade local, foi um visionário. O considero Profeta do Velho Chico, em razão de sua dedicação ao rio  São Francisco.

Quando fazia seus rabiscos na folha de papel dizendo “hoje o rio está com mil polos”, ele estava prevendo que o rio São Francisco  um dia secaria, de um “polo” a outro”, isto é, desde a sua nascente (em Minas Gerais) até  a sua foz no Pontal do Peba ( em Alagoas), onde suas  águas desembocam no mar.

Na época ninguém o compreendeu, porém, hoje, ao vermos o grande desastre ambiental provocado no rio São Francisco, podemos dizer que foi em protesto contra a construção de hidrelétricas no Velho Chico, que "Tonho Doido" quebrou as lâmpadas da iluminação pública de Pão de Açúcar, na noite de sua inauguração. Ele estava prevendo que a geração de energia elétrica provocaria a morte do nosso rio.

E essa crise hídrica, anunciada pelo Profeta do Velho Chico,  foi provocada pela insana agressão ambiental praticada pelos homens civilizados através de construções de usinas hidrelétricas e, também, com a destruição de suas matas ciliares.

O Profeta do Velho Chico estava anunciado que chegaria o tempo em que  o rio ficaria em “leito de morte”, devido à drástica redução do volume de água em sua calha, em consequência dos ambiciosos projetos criados por governantes, empresários, pecuaristas, agricultores e outros. Por estes motivos, hoje o rio São Francisco é apenas um resto de água represada.

E, estudando os impactos ambientais provocados por tais projetos, alguns ambientalistas já denunciaram a grande devastação causada por  agrotóxicos, esgotos industriais e domésticos, que são lançados diretamente nas águas do antigo Opara (rio-mar) e em seus importantes afluentes.

 Ao longo do rio foram erguidas gigantescas muralhas de cimento; instalaram indústrias; fizeram pastos para a criação de gado e implantaram projetos de agricultura irrigada. Tudo foi feito sem o mínimo respeito ao rio São Francisco. Só pensaram em lucros financeiros. Até porque, para essa gente, a saúde do rio pouco importa.

Com a construção de várias hidrelétricas ao longo do rio, em especial, a Usina Hidrelétrica de Xingó, obra iniciada em 1987 e inaugurada em 1994, entre os estados de Sergipe e Alagoas, a CHESF provocou enormes prejuízos à economia dos municípios ribeirinhos do Baixo São Francisco, além de ter decretado o desaparecimento de importantes lagoas, que eram consideradas fontes de sobrevivência para milhares de famílias ribeirinhas que viviam da cultura do arroz (rizicultura) e da pesca de espécies variadas de peixes (para o preparo de saborosas  moquecas).

Com a construção do Reservatório de Xingó, que tem 60 quilômetros de área alagada, cercado por  muralhas de cimento e pedras (enrocamento), cuja estrutura tem 141 metros de altura – a produção de arroz desapareceu completamente, as fábricas de beneficiamento foram desativadas, muita gente ficou desempregada, provocando, assim,  gravíssimo colapso econômico nos municípios ribeirinhos, a exemplo de Pão de Açúcar, Belo Monte, Traipu, São Braz, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo, Poço Redondo, Porto da Folha, Propriá, Neópolis, Brejo Grande, dentre outros.

As cheias naturais do rio São Francisco, durante o período úmido, isto é, durante a estação chuvosa, enchiam as lagoas e promoviam grande fartura para as famílias ribeirinhas, garantindo a alimentação na mesa dos menos abastados.

Podemos citar como exemplo de grandes cheias, a cidade de Pão de Açúcar: ** em 1926, as águas do rio atingiram 10 metros e 80 centímetros;  em 1949, o rio São Francisco atingiu a altura de 9 metros e 95 centímetros; no dia 11 de março de 1960, das 22 horas do dia anterior até às 6 horas da manhã de 11, as águas do rio subiram 1 metro e 76 centímetros, fato jamais visto por pessoas residentes em Pão de Açúcar. Em 1960, na escala, a altura do rio São Francisco atingiu 10 metros e 12 centímetros.

E essas enchentes naturais representavam abundância de alimentação e de dinheiro para todas as classes sociais, sendo o  arroz e o pescado os principais impulsionadores da economia ribeirinha.

Antes do desaparecimento dessas lagoas, alguns lugares de Pão de Açúcar e de outras cidades ribeirinhas do Baixo São Francisco se transformavam em verdadeiras montanhas de palhas de arroz, sendo este produto transformado em ração para alimentar suínos, que era conhecida como “pó de porco”.

Com o controle total do rio pelas gigantescas barragens, as lagoas secaram, a fartura acabou, e grande desolação foi vista nesses municípios, aumentando consideravelmente o índice de pobreza na região.

Em 2013, realizamos uma pesquisa para a elaboração do nosso projeto cultural As Cantigas das Lavadeiras do rio São Francisco, em Pão de Açúcar, no estado de Alagoa. Entrevistamos doze antigas lavadeiras de roupa e plantadoras de arroz. Durante seus depoimentos sobre as cheias naturais, as plantações e colheitas de arroz, quase todas as mulheres choraram copiosamente de tristeza e saudade da época em que o Velho Chico oferecia fartura de tudo, até de alegria e felicidade.   

É praticamente impossível calcular os números dos prejuízos causados pela CHESF às populações ribeirinhas.

Com a extinção da cultura do arroz nos municípios banhados pelo rio São Francisco – quantos pilões de madeira foram abandonados nos terreiros e quintais? Quantos chapéus de palha e camisas compridas foram encostados para sempre nas camarinhas? Quantas cantigas foram  sepultadas com as plantadoras de arroz que morreram de desgosto? Quantos batalhões de lagoa desapareceram e deixaram pobre o rico folclore ribeirinho? Quantas fábricas de beneficiamento de arroz fecharam suas portas? Quantos homens e mulheres ficaram desempregados?  Quantos milhões deixaram de circular no comércio dessas cidades? São dantescos os  prejuízo dados pela CHESF a esses municípios!

Com toda a certeza, podemos afirmar que além de ter imposto um grave desrespeito às populações ribeirinhas, a CHESF abandonou-as completamente, pois, segundo as próprias vítimas declararam, nunca foram procuradas pela Companhia causadora dos gravíssimos danos.

Sabemos que a Companhia promoveu (e ainda promove), através de parceiros, cursos e capacitações, objetivando qualificar jovens ribeirinhos para ingressarem no mercado de trabalho, porém, tais ações são muito acanhadas e insuficientes. Este tipo de recompensa não condiz com as reais necessidades da população!

Partindo desta realidade, podemos afirmar (e nada nos faz voltar atrás) que a dívida da CHESF para com os municípios que margeiam o Velho Chico é exorbitante, principalmente na região do Baixo São Francisco – porque foram provocados danos materiais e psicológicos incalculáveis.

Assim sendo, é uma obrigação da CHESF indenizar todos os municípios do Baixo São Francisco, por este grande e vergonhoso desastre ambiental, econômico e cultural. E com atinência a este polêmico tema, é lamentável que a Companhia Hidrelétrica do São Francisco tenha sempre contado com a conivência de políticos inescrupulosos e de importantes tribunais do nosso maculado Brasil.

Se o recursos do pré-sal  serão divididos entre União, estados e município,  por que a CHESF não rateia com os municípios ribeirinhos do Baixo São Francisco ¼ (um quarto) dos recursos oriundos de sua receita com a venda de energia elétrica? Esta será a forma mais justa para recompensar os  municípios pelos prejuízos causados ao longo de mais de 30 anos.

Quanto ao autor deste artigo, é morador ribeirinho, amante e defensor incondicional do Velho Chico. Tornou-se um crítico contumaz de movimentos e organizações que fazem de conta que defendem o rio São Francisco, enquanto a população finge que está preservando este manancial que foi batizado, em  4 de outubro de 1501, com o nome do “santo  que desposou a pobreza” – São Francisco de Assis.

Certamente, os ambiciosos e insanos governantes, inspirados no “santo que desposou a pobreza”, impuseram gritante miserabilidade ao Velho Chico, ao agredirem impiedosamente o nosso rio, que hoje se encontra agonizando na UTI da irresponsabilidade, omissão e conivência de políticos desonestos, que somente se identificam com São Francisco, no momento da asquerosa devoção à prática  “é dando que se recebe” – engordando, de maneira vergonhosa e imoral, suas contas bancárias e, assim, avolumando suas riquezas – que o diga o nefasto e inconsequente “Projeto de Transposição”, cujas obras foram superfaturadas para alimentar um resistente esquema de corrupção que enlameia o nosso país.

Por isso, deixamos aqui esta mensagem para a reflexão de organizações, movimentos e órgãos que estão brincando de preservação ambiental, executando ações paliativas e insignificantes, enquanto desviam recursos, metem a mão no dinheiro público, acrescem seus patrimônios, na maioria das vezes, movimentados por laranjas.

E enquanto eles fingem que estão desenvolvendo políticas públicas para salvar o rio São Francisco,  o antigo Opara arqueja, em consequência da ausência de políticas públicas e ações sérias e eficazes.

Chega de faz de conta! Ações paliativas não resolvem o gravíssimo problema vivido pelo rio São Francisco! O Velho Chico carece de ações concretas e urgentes! E não adianta insistir com o modelo obsoleto de fazer política – porque de nada vai adiantar as fórmulas mágicas e os discursos demagógicos daqueles que só estão voltados para os holofotes da mídia.

Somos contra o Projeto de Transposição! Queremos a Revitalização do rio São Francisco já!!!

 

Antigo cartaz com o símbolo da Aliança para o Progresso...

Foto: Reprodução/Google

 

Praça Senhor do Bonfim - Pão de Açúcar (AL). Enchente no ano de 1919

 

 

Prédio da Cadeia Pública de Pão de Açúcar (AL). Enchente no ano de 1919

 

Vista área da cidade de  Pão de Açúcar (AL) - Enchente no ano de 1960

 

Praça 113 de Maio - Pão de Açúcar (AL). Enchente no ano de 1979

 

Grupo Escolar Rosália Sampaio Bezerra - Pão de Açúcar (AL) - Enchente no ano de 1979

 

O Campo Grande , cidade de Pão de Açúcar (AL). - Enchente no ano de 1979

Fotos: Reprodução/Redes sociais

* Foi um amplo programa cooperativo destinado a acelerar o desenvolvimento econômico e social da América Latina. A sua origem remonta a uma proposta oficial do Presidente John F. Kennedy, no seu discurso de 13 de Março de 1961 durante uma recepção, na Casa Branca, aos embaixadores latino-americanos. O discurso foi transmitido pela Voz da América em inglês e traduzido em espanhol, português, francês. A Aliança duraria 10 anos, projetando-se um investimento de 20 bilhões de dólares, principalmente da responsabilidade dos Estados Unidos, mas também de diversas organizações internacionais, países europeus e empresas privadas. O Brasil foi um dos países beneficiados.

**Fonte: Livro História e Efemperides, do autor pão-de-açucaresnse Aldemar de Mendonça.

Comentários

Escreva seu comentário
Nome E-mail Mensagem