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Banda Sociedade Musical Guarany completa 100 anos de existência em Pão de Açúcar

Considerada uma indústria de excelentes músicos, a Filarmônica foi criada pelo imortalizado 'Mestre Nozinho', em 15 de março de 1918.


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  Fonte: Livro 'Tocando Amor e Tradição - A Banda de Música em Alagoas', volume I, do autor Wilson Lucena.

Banda Sociedade Musical Guarany...

Banda Sociedade Musical Guarany...   Foto: Reprodução/Acervo de Antonio do Mestre

Postado em: 16/03/2018 às 11:53:16

Nesta quinta-feira, 15 de março de 2018, a Banda Sociedade Musical Guarany, de Pão de Açúcar (AL), completou 100 anos de existência.  Para homenagear esta indústria e exportadora de excelentes músicos, transcrevo informações colhidass nesta obra extraordinária, de autoria do pesquisador, jornalista, funcionário aposentado do Banco do Brasil,  Wilson José Lisboa de Lucena. O rico texto é fruto de pesquisas realizadas por este abnegado escritor penedense, que presenteou Alagoas com esta obra extraordinária: Tocando Amor e Tradição – A Banda de Música em Alagoas.

A atual Sociedade Musical Guarany de Pão de Açúcar é a mesma banda de música criada e mantida, ao longo de sua vida, pelo alfaiate e músico Manoel Vitorino Filho (“Mestre Nozinho”). Sergipano de Neópolis, ele se tornaria o afamado fazedor de grandes músicos e de notáveis maestros de Pão de Açúcar. No rico arquivo de fotos da banda, herdada pelo seu filho, o também músico Antônio de Melo Barbosa, conhecido como “Tonho do Mestre”, nas imagens da corporação, até 1946, o bombo sempre aparece à frente, ao centro e ao lado do Mestre Nozinho. Em tal instrumento, acha-se grafado “Jazz-band e Banda Pão de Assucarense”. Ao que indica, sem algum parâmetro documental, reconhece-se que a Sociedade Musical Guarany, ou  seja, a “Banda de Música Pão de Assucarense de Mestre Nozinho” foi fundada em 18.03.1918, data que mantém certa coerência com o seu surgimento e, assim, ficará perpetuada.

A propósito dessa nomenclatura da banda, no livro “Dois Maestros Alagoanos” (1981), do autor Felix Lima Júnior , existe referência que uma suposta banda de música pão-de-açucarense, denominada de “Unão e Perseverança”, teria recepcionado o genial violonista Nezinho Cego no porto de Pão de Açúcar, quando do seu retorno do Rio de Janeiro. Contudo, os historiadores nativos Aldemar de Mendonça e Gervásio Francisco dos Santos não se reportam a tal agremiação musical, o que despertou a suspeita neste autor de que a Banda de Música Pão de Assucarense, a Banda de Música União e Perseverança e a atual Filarmônica Guarany se tratam da mesma corporação musical, hipótese que ganhou força ao ler  o artigo “Bandas de Música”, de autoria do advogado Adherbal de Arecippo, publicado na Gazeta de Alagoas, edição de 09.11.1968, quando o autor ilustra: “Em Pão de Açúcar , onde atravessei a minha adolescência, prontificava, com muito brilho, a União e Perseverança, dirigida pelo devotado Mestre Nozinho”. O pesquisador Billy Magno localizou alguns arquivos antigos da Sociedade União e Perseverança, abreviada como SUP, o que pressupõe ser a denominação anterior da Sociedade Musical Guarany.

Reprodução/Acervo de Antonio Melo Barbosa, o "Antônio do Mestre".

Segundo informações repassadas pelo serventuário de justiça Eberval Almeida Brandão de Souza, em 15.06.1958, após conselho de seu cunhado, advogado Valdemar da Guia, o Senhor Antônio de Melo Barbosa (“Tonho do Mestre”), filho do mestre Nozinho, registrou a Banda Musical de Pão de Açúcar no Cartório de Registro Local, que recebeu a denominação de “Sociedade Musical Guarany”.

De conformidade com o escritor Gervásio Francisco dos Santos, Mestre Nozinho foi um homem que se notabilizou pelo seu dinamismo musical. Incansável animador das festas religiosas, recreativas e cívicas. As retretas costumavam acontecer aos domingos após a celebração da santa missa e o palco era o coreto da Praça da Matriz. Em 1922, organizou-se um compacto conjunto de choro, que foi cognominado de “A Batuta”. A equipe de músicos, que se apresentava trajada impecavelmente com terno e chapéu, era assim constituída: Mestre Nozinho (violão), José Bento (clarinete), Jano Vieira (violão), José Guimarães, o Zequinha (violão), Elpídio Fonseca (violão), Antônio Marsiglia (violão), José Costa, o Zé de Maria Bela (cavaquinho), José Costa, o Zé de Maria Rita (pandeiro), Álvaro Melo (ganzá), Pedro Pereira, o Pedro de Seu Jesuíno (castanhola), João Pires de Carvalho (reco-reco) e outros. Criou também o Jazz-band Independente, cuja bateria foi adquirida através de uma campanha liderada pelo então juiz de direito Luiz Menezes da Silva Tavares. Mestre Nozinho ainda participava de um coral sacro orquestrado, conjuntamente com senhoras memoráveis da sociedade local.

Por sua vez, o advogado Adherbal de Arecippo, em seu artigo “Um fazedor de músicos”, publicado no jornal “A Gazeta de Alagoas”, edição 28.04.1960, enfatiza que não sabe de quantos homens vividos no interior do Estado, tenha sido tão úteis como o musicista Manoel Vitorino Filho. Ele foi um inconfundível e incansável mestre de centenas de jovens que se dedicaram ao estudo da Música. E esses vocacionados para a mais bela das artes tinham em Nozinho o professor competente, idealista e desinteressado de qualquer remuneração. Usando  apenas os recursos de alfaiate, jamais deixou de manter a banda de música  em atividade na cidade. Há vários anos, só dispunha de aprendizes cooperando consigo, porque os atingidos a um nível de maior conhecimento, logo rumavam para lugares  mais adiantados.

Os serviços musicais prestados por Manoel Vitorino Filho não duraram dez ou quinze anos, mas aproximadamente quarenta e cinco anos. Portanto, o seu retrato precisa ser posto em um órgão público, uma rua precisa ter o seu nome e uma escola requerer tê-lo como patrono.

Dentre os seus discípulos de carreira expressiva, podem ser destacados os mestres e maestros: Racine Bezerra Lima (maestro 19º BC Salvador); Petrúcio Ramos de Souza (maestro Base Aérea de Salvador); Manoel Capitulino de Castro, o “Passinha” (maestro 20º BC Maceió); Acilon Ramos de Souza (regente Polícia Militar de Pernambuco); José Ramos de Souza (regentes de bandas e orquestras ); Francisco Ferreira e Fernando Mendonça (Base Aérea do Galeão RJ); Jonas Guimarães Pauferro (Polícia Militar de Alagoas);  José Batista de Aquino, “o Duduca” (Polícia Militar de Sergipe);  Zivaldo Ribeiro, o “Zico” (Batalhão de Guardas do Exército RJ); José Gonçalves Filho, o “Zequinha de Mestre Salo” (maestro da Filarmônica Santa Cecília de Palmeira dos Índios); Anacleto Ramos e Valter Ramos (oficiais Base Aérea Salvador); César Ramos (Polícia Militar da Bahia); Afrânio Menezes, o “Bubu” (maestro da banda municipal de Piranhas) e Cícero Francisco de Brito, o “Cafau” (maestro da Filarmônica Mestre Elísio de Piranhas), dentre outros.

Jazz-Band, ano de 1946.      Acervo: Antônio Melo barbosa, o "Antonio do Mestre".

 

De conformidade com o atual presidente Eberval Almeida Brandão de Souza, após a regularização jurídica da Sociedade Musical Guarany, Mestre Nozinho assumiu a presidência e a regência até a sua morte em 18.04.1960. Segundo informa Williams Magno (Billy), quando do sepultamento do Mestre Nozinho, quem conduziu a banda foi o músico Álvaro Simas, executante de requinta. Após a morte do maestro Nozinho, várias pessoas assumiram o cargo de maestro: “Tonho do Mestre”, filho de Mestre Nozinho, que atuou por pouco tempo; Francisco Antônio dos Santos (Mestre Chiquinho) até a sua morte; José Batista de Aquino (Duduca); José Brandão de Souza (Zé Broinha), que permaneceu no posto até início dos anos 80; Afrânio Menezes da Silva (Bubu) até 1990, quando assumiu a regência da banda de música de Piranhas; Cícero Francisco de Brito (Cafau); José Ramos dos Santos (Zé de Caxapá); Augusto Pauferro Couto; Paulo Henrique Lima Brandão e novamente José Ramos dos Santos.

Eberval informa, ainda, a galeria de residentes: Mestre Nozinho (1958 a 1960); Ascânio Rodrigues Correia (até 1984); Lucilo Brandão de Souza, o Cilinho (até 1986); José de Arimateia Bezerra (1988); Manoel Messias Barroso (até 1990); Tasso Almeida Souza (1992) e Eberval Almeida Brandão de Souza (a partir de 1996).

Principais feitos dos presidentes: Maestro Nozinho (fundação e manutenção da escola e banda de música, compreendendo o período de 1918 a 1960); Ascânio Rodrigues Correia (aquisição de instrumentos musicais junto à FUNARTE em 1983); Lucilo Brandão de Souza (reativação da escola de música em 1985); José de Arimateia (inscrição da instituição musical no CNPJ);  e Eberval Almeida Brandão Souza ((aquisição de instrumentos musicais junto à Prefeitura).

 

Ele também foi responsável pela formação de uma nova diretoria, assim composta: Eberval Almeida Brandão de Souza (presidente); Givago Almeida Souza (vice-presidente); Agilton Ramos de Carvalho (1º secretário); Milton Lopes Júnior (2º secretário); Mário César Lima Brandão (1º tesoureiro) e José Venceslau Caldeira (2º tesoureiro).

Nesse período intermediário, compreendido entre a fase remota do mestre Nozinho e o advento do maestro Petrúcio Ramos de Souza, surgiram excelentes músicos, dos quais merecem destaque: Napoleão Barroso (trompete), José Ramos dos Santos (tuba), Williams Magno Barbosa Fialho (vários instrumentos), Givago Souza, Marcelo Pauferro, Marcus Pauferro, Augusto Pauferro Paulo Henrique Brandão, Bergson Mazoni, Aelder Fonseca, José Ramos, Otacílio, Euclides, José Carlos, Gervásio, Zezinho Barroso, dentre outros.

Em 1997, a Loja Maçônica Jaciobá ofereceu suas dependências para funcionar a sede da Sociedade Musical Guarany, sendo, em 1998, o maestro Petrúcio Ramos de Souza, oficial reformado da Aeronáutica em Salvador, convidado, pelo presidente Eberval Almeida, para assumir o posto de novo regente da tradicional agremiação musical pão-de-açucarense, acumulando também o cargo de presidente. Iniciou-se, então, uma das fases mais áureas da história da Sociedade Musical Guarany. Profissional muito dinâmico e especializado, através de uma disciplina militar e de método próprio de ensino, o mestre Petrúcio Ramos, mesmo sem contar com equipamentos novos e maiores incentivos, em pouco tempo transformou uma garotada de tenra idade em musicistas disciplinados e de excelente padrão técnico. “Minha missão não é apenas formar músicos profissionais, mas oferecer a eles um caminho de disciplina, respeito e cidadania. Eu os preparo para a vida”, enfatizou o aludido regente.

Apesar de contar com o abrigo da Loja Maçônica Jaciobá, as atividades musicais eram realizadas na própria residência do maestro Petrúcio Ramos, que contava com o assessoramento da esposa Marinita, do músico José Ramos (Zé de Caxapá) e da secretária voluntária Geysa Maria de Brito. Graças à parceria com velhos amigos, o dinâmico regente conseguiu adquirir alguns instrumentos bem conservados, incluindo equipamentos importados. A Prefeitura Municipal de Pão de Açúcar se integrou a essa renovação instrumental, doando um conjunto de trompas de harmonia. Por fim, a Fundação Nacional de Artes (Funarte), através do Programa Banda de Música, repassou um kit padrão com 18 instrumentos.

Assim a Filarmônica Guarany se tornou conhecida e ganhou destaque em Alagoas. O velho maestro Raimundo dos Santos, ex-regente da Banda de Música da Polícia Militar de Sergipe, ficou admirado com a harmonia e sonoridade da banda de música.

A jovem agremiação musical participou de encontros estaduais de bandas de música realizados, respectivamente, em Marechal Deodoro, Palmeira dos Índios e Penedo, além de abrilhantar  o desfile do Bloco Carnavalesco Pinto da Madrugada.

Maestro Petrúcio Ramos, regente da Banda Sociedade Musical Guarany.                 Reprodução/AcervoWilson Lucena

Infelizmente, alegando motivos pessoais, em 2009, o maestro Petrúcio Ramos pede o seu afastamento dos cargos de presidente e de maestro da Sociedade Musical Guarany. Foi sucedido por Júlio César Cardeal Dias na regência, por sinal seu discípulo. Em anos recentes, ele enfrentou alguns problemas de saúde, inclusive se submetendo a uma intervenção cirúrgica. Mas o incansável mestre, em sua própria residência, já montou uma nova escolinha musical, bem como formou uma nova bandinha.

Da nova geração que despontou sob a égide do maestro Petrúcio Ramos, boa parte foi encaminhada para corporações militares, alguns chegando a oficiais. Por amostragem, merecem menção: Sérgio Oliveira dos Santos, Samuel Vieira e Jackson da Silva (trombones), José Pauferro Neto e Jobe Alves (saxofones), Ruan Brito de Brito Silva Carvalho, Emerson Roniere Luiz Farias e Josemar da Silva Ferreira (trompetes), José Maurício dos Santos Nunes (bombardino), Júlio César Cardeal (flauta), Carlos Robson Batista (clarinete) e David Gustavo (tuba), dentre outros.

O músico Williams Magno Barbosa Fialho, mais conhecido como Billy, é o maior nome da nova geração de músicos de Pão de Açúcar. De conformidade com a reportagem “Genioso e Genial”, de autoria do repórter Fernando Coelho, publicada no jornal “Gazeta de Alagoas”, edição de 01.04.2007, Billy Magno é considerado um dos mais talentosos músicos alagoanos dos últimos tempos. Nascido em Pão de Açúcar (AL) em 05.07.1978, representa um daqueles casos raros no universo da arte. Musicalmente superdotado, aos cinco anos, começou a martelar a bateria. Depois, se interessou pelo contrabaixo, saxofone e piano. Ainda adolescente, foi estudar  orquestração e regência em Salvador. Ao aportar em Maceió em 1996, não demorou a chamar a atenção de bandas locais da música instrumental, inclusive do maestro Ivanildo Rafael, que se renderam à técnica, criatividade e ao virtuosismo do emergente e genial instrumentista. Teve passagem por vários grupos musicais, aderindo ao jazz, gênero que mantém grande domínio. Enfim, em busca de maiores horizontes, migrou para São Paulo, onde já se firmou como um renomado artista.

Atualmente, a tradicional musical pão-de-açucarense permanece sob o comando administrativo do competente e abnegado dirigente Eberval Almeida Brandão de Souza, cuja vivência musical remonta a 1982, quando, aos cinco anos de idade, orientado pelo mestre Afrânio Menezes da Silva (Bubu), começou a tocar pratos na banda. É o tipo do dirigente que joga para o time, sendo focado no lado institucional da sociedade”.   

Banda Sociedade Musical Guarani, em 03 de março de  2011, sob a regência do maestro Oracílio Ramos/

Acervo: Helio Fialho

 

Ao completar o seu primeiro centenário, a Banda Sociedade Musical Guarani tem fincada em Pão de Açúcar uma brilhante história de luta, resistência, superação e de grandes conquistas – porque enfrentando as grandes dificuldades financeiras vem resistindo as intempéries e cumprindo o seu magnífico papel, tendo, destarte, se tornado uma produtiva e diferenciada indústria de extraordinários talentos musicais.

Sabe-se que por sua magnífica importância e por seus valiosos préstimos aos filhos de Jaciobá, a Banda Sociedade Musical Guarany tornar-se-á, nos próximos dias, por meio de um projeto de lei aprovado pela Câmara de Vereadores, Patrimônio Cultural e Imaterial de Pão de Açúcar.

Por tudo que esta instituição musical pão-de-açucarense representa para as gerações do passado, do presente e do futuro, seria demasiadamente injusto não homenageá-la nesta data tão especial.

Parabéns, Banda Sociedade Musical Guarani, pelo aniversário de  100 anos de fundação!!!

Viva Pão de Açúcar, celeiro de excelentes músicos!!!

 

Reprodução/Acervo de Antonio Melo Barbosa, o "Antônio do Mestre".

Reprodução/Acervo de Antonio Melo Barbosa, o "Tonho do Mestre".

O músico Billy Magno... tocando sax.     Reprodução/Acervo de Billy Magno

O músico Billy Magno... no teclado.        Reprodução/Acervo de Billy Magno

 

Com textos introdutório e conclusivo de Helio Fialho

 

 

 

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