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Homenagem póstuma ao musicista Capitão Racine Bezerra Lima

Enquanto existir uma filarmônica a se apresentar, um dobrado a tocar e for preservada a história da música pão-de-açucarense, o extraordinário musicista Racine Bezerra Lima será lembrado.


Helio Fialho em visita ao amigo Capitão Racine, em 2003.

Helio Fialho em visita ao amigo Capitão Racine, em 2003.   Foto: Arquivo de Helio Fialho

Postado : 06/08/2018   /   por Helio Fialho

Recebi com tristeza a notícia da morte do meu amigo Capitão Racine. E, de repente, veio-me as agradáveis lembranças da época em que conversávamos, quando ele chegava para matar a saudade da Terra de Jaciobá.   

Quando aqui ele chegava, eu sempre o visitava em sua residência e, ainda, conversávamos sentados à porta da casa da senhora Maria Melo, a mãe do meu, também, amigo Bergson Melo.

Com ele aprendi muitas e ricas lições de vida, pois era uma pessoa, apesar da grande simplicidade que o dominava, de grande sapiência e detentor de amplo conhecimento.

Também tive a honra de tê-lo como ouvinte do meu programa radiofônico “Momento da Cultura, apresentado através das ondas da Rádio Jaciobá FM, que tinha como trilha sonora  antigos dobrados executados por renomadas filarmônicas militares. E ele, entusiasmado com a qualidade do programa, sempre fazia doações de CDs, os quais guardo até hoje com muito carinho.

Também guardo comigo algumas cartas manuscritas e recortes de revistas que ele, através dos Correios, enviava a mim – e fazem parte do meu acervo –  que ficará para a posteridade, pois as considero verdadeiras relíquias porque em cada uma delas existe uma mensagem de profundo otimismo e de grande fé no Criador.

Quando ele viajava de Salvador, antes de chegar a Pão de Açúcar, sempre passava alguns dias em sua casa de veraneio, localizada no município de Paripueira, uma terra litorânea de belas paisagens.

Racine Bezerra Lima nasceu em Pão de Açúcar, em 19 de março de 1926, no dia em que o Brasil comemora o dia do santo artesão – São José. Filho do casal João Bezerra Lima e Laura Gonzaga da Silva Lima, Racine Bezerra Lima casou-se com a senhora Maria de Medeiros Lima (já falecida), com a qual teve quatro filhos: Racine Bezerra Lima Filho (general de divisão do Exército Brasileiro), Daniel Medeiros de Lima (coronel da Infantaria do Exército Brasileiro),  Maderlene Medeiros Lima e Maria Regina Medeiros Lima (ambas exercem a profissão de médica).

Teve iniciação musical com o maestro Nozinho, em Pão de Açúcar, passando a integrar a Banda Guarany. Em Maceió, no 20º Batalhão de Caçadores, ingressou como músico militar. Na Capital alagoana, participou das orquestras do maestro Passinha (pão-de-açucarense, também) e do 2º Batalhão de Caçadores, além do coral do Conservatório de Música de Maceió sob a regência da professora e maestrina Venúzia Barros. Ainda, em Maceió, estudou no Colégio Guido de Fontgalland, onde obteve formação em nível técnico de contabilidade.

Prosseguiu carreira militar no 8º Regimento de Cavalaria de Uruguaiana (RS) e no 19º Batalhão de Caçadores de salvador (BA), onde assumiu o posto de maestro-regente ao longo de 10 anos.

Recebeu um diploma pela participação num curso mestre e maestro de Música promovido pelo Departamento de Ensino e Pesquisa do Exército Brasileiro.  Dentre as composições de sua autoria, destacam-se os dobrados: Coronel Maia Pedrosa, Coronel Oduvaldo, Coronel Firpo e DANRAFITEI (este escrito para homenagear seus filhos  e genro (na época, os coronéis Daniel, Racine e Teixeira).

Consta na magnífica obra literária Tocando Amor e Tradição – a Banda de Música em Alagoas,  de autoria do pesquisador, historiador e escritor penedense Wilson José Lisboa Lucena, “como fatos marcantes de sua trajetória musical, o maestro Racine Bezerra Lima ressalta a assunção no comando do 25º BI PQDT por seu filho, Coronel Racine Bezerra Lima Filho, quando a banda de música da Brigada Paraquedista executou o dobrado DANRAFITEI, de sua autoria, bem como a gravação em CD da aludida peça musical pela banda de música da Guarnição Federal de São Luiz (MA), à época comandada por seu outro filho, Coronel Daniel Bezerra Lima”.

“O Jovem pão-de-açucarense Racine Bezerra Lima saiu de sua terra natal Pão de Açúcar em busca de concretização dos objetivos que tornassem seus caminhos em realidade. Ingressa na vida de militar e percorre caminhos que aliam “vida castrense” e “sensibilidade musical”. Consegue se realizar como mestre e maestro militar e se perpetua por meio de sua família que abriga um general de divisa e um coronel do Exército Brasileiro, médicos, engenheiros e advogados, extremamente orgulhos do pai, avô, amigo e irmão que os educou, orientou e caminhou para a jornada da vida”.

De fato, a ascensão do maestro e mestre Racine Bezerra Lima é motivo de orgulho para todos os filhos e amantes desta terra que um dia foi taba dos extintos índios Urumaris. Um homem probo, de moral ilibada, desprovido de vaidade, desnudo de arrogância e orgulhoso de ser filho desta plaga abençoada pela sagrada imagem do Cristo Redentor.

Com este extraordinário e reformado tenente-coronel do Exército Brasileiro, que gostava de ser chamado de “Capitão Racine”, aprendi que “quando quem manda perde a vergonha, quem obedece perde o respeito”.

Quando ficou sabendo do passamento deste imortalizado filho do “Paraíso da Água Doce”, o notável músico e pesquisador Billy Magno expressou: “Um pedaço da história foi com ele”.

Com a morte do ilustre filho Racine Bezerra Lima, o Espelho da Lua perde uma referência que fazia mais notável o seu reflexo – e a Terra do Sol fica sem um raio importante que fazia mais fulgurante o seu brilho.  

A nossa cidade está enlutada. E enquanto existir uma filarmônica a se apresentar, um dobrado a tocar e for preservada a história da música pão-de-açucarense, o extraordinário musicista Racine Bezerra Lima será lembrado.  

O sepultamento está marcado para esta segunda-feira (6), às 10 horas, em Salvador –  Bahia de todos os santos. O maestro Petrúcio Ramos e sua esposa Marinita Ferro, que são amigos e conterrâneos do falecido, participarão do cortejo fúnebre e, representando Pão de Açúcar, acenarão o último adeus a este filho da Cidade Branca que soube amar intensamente o torrão natal.

Um grande coral angelical já o recebeu na Mansão de Luz. Descanse em paz, meu amigo de fé, sob a proteção do Pai Celestial! Saudade perpétua!

Fonte: Livro "Tocando Amor e Tradição - A Banda de Música em Alagoas", do autor Wilson José Lisboa de Lucena.

 

Trecho da carta enviada por Racine Bezerra Lima. Arquivo de Helio Fialho

Carta enviada por Racine Bezerra Lima. Arquivo de Helio Fialho

 

Carta enviada por Racine Bezerra Lima, em 2001. Arquivo de Helio Fialho

 

 

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  • DANIEL MEDEIROS LIMA 21 de Julho de 2021 MEU PAI! Grande exemplo e fonte de inspiração para a caminhada da vida! Tenho muito orgulho e ler estas palavras que referendam sua BRILHANTE EXISTÊNCIA! Que o GRANDE ARQUITETO DO UNIVERSO O ACOLHA EM SUAS HOSTES CELESTES!
    Sub ten Holanda 31 de Julho de 2021 jcholanda7@gmail.com